terça-feira, 22 de abril de 2014

Ainda sinto minha unha te arranhando devagar nas costas depois de te fazer massagem e eu sinto vontade de jogar todo meu peso sobre você e murmurar na sua orelha que nunca mais foi igual e que as farpas estão me incomodando. Eu queria sentar de costas para você na nossa cama e tirar a blusa e te mostrar minhas cicatrizes, minhas asas quebradas cheias de ferrões, sujeiras, farpas e um pouco de sangue. Eu queria que você puxasse cada impureza de mim uma a uma e assoprasse quando eu gemesse de dor, depois queria que você costurasse minhas asas no lugar e me abraçasse até parar de arder. Mas eu não sinto suas mãos deslizando por mim, sinto apenas essa dor de pequenas coisas me fincando, pequenas coisas que de tanto eu me remexer sozinha tentando retirá-las já fizeram buracos profundos na minha coluna. Minha escápula está dolorida e quando eu me olho no espelho, sinto vontade de chorar. E choro. Choro porque essas asas feridas já foram gigantes quando você voava comigo e agora sou um anjo caído. Inspirar corrói meus pulmões, expirar me faz cuspir sangue às vezes. Qualquer um me pergunta porque eu não arrumo outra pessoa para me ajudar a reconstruir estas asas e eu só digo que não, que nunca, que não dá. Porque essas asas foi você quem me deu, você me ensinou a voar e elas só ameaçam bater novamente quando você está por perto. Sem você, elas são asas tristonhas que não têm sede de vento. Com você, mesmo feridas, elas tentam e tentam alçar voo. Só tem falhado um pouco nossa comunicação, nossa compreensão de nós. Eu só preciso de ajuda com as malditas farpas.

3 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo texto, não pare nunca!

Anônimo disse...

Esse texto me tocou de uma forma que você nem imagina.

Hannah Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.