quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Medo de escuro.

Não queria te perder de vista nesses momentos cruciais. Momentos que valem muito. Queria estar por perto quando o dia começasse só para te dar a certeza da grandiosidade da manhã. Não, eu não penso assim sempre, mas eu pensaria se acordasse ao teu lado e por pensar nessa possibilidade, acabo otimista com o nascer do Sol de todos os dias. Queria poder te oferecer mais do que minhas palavras. Queria te oferecer tudo que já é seu por inteiro, apesar de você não ter em mãos — ainda. Queria que aquele meu presente fosse mais do que algumas canções gravadas. Apesar de que as canções te contam em meio a instrumentos e vozes que eu sou sua. Ouça bem cada uma delas enquanto eu não posso te olhar nos olhos pra te dizer isso.

Meu coração fica pequenininho quando penso na imensidão de tudo isso. Quando penso na vontade de te segurar firme e falar que você merece ser muito feliz — "não só hoje, mas todos os dias". Quando penso na sua vida aí toda emaranhada com a minha vida do lado de cá. O coração não fica miúdo de agonia, não, fica miúdo por ser pequeno demais pra essa mistura absurda de sentimentos e sensações. Sensações e vontades. Vontades imensas que nem cabem em mim e tenho que recorrer à fantasias. Nem os sonhos me satisfazem mais porque, às vezes, você insiste em fugir de mim quando fecho os olhos. Mas quando acordo você volta  em pensamentos e sorrio meio abobada.

Dias como hoje. Dias que valem tanto só me dão mais vontade de te olhar. A imaginação falha em alguns momentos e em momentos em que você deve estar tão feliz, eu só queria observar essa felicidade. Não precisaria nem que você me visse. Eu poderia ficar escondida pelos cantos, te olhando atrás da fechadura, te olhando pela fresta da porta, te olhando por cima do muro ou de cima da árvore. Não digo que não queria estar contigo, queria sim. Mas só a sua presença seria o suficiente, acho que é isso. E depois de te observar o dia todo, eu poderia aparecer à noite. Não em sonhos, não em pensamentos. Em carne e osso. Deitada ao seu lado e contando de como eu te observei quieta sem que você me visse. De como eu fiquei feliz só pela sua felicidade.

O que eu quero dizer com tudo isso é: aproveite seu dia e faça com que todos os dias sejam seus, mesmo que não haja nenhuma data significativa. Fique feliz o tempo todo se possível. Não estarei escondida atrás de nenhuma porta te observando porque não será possível, mas eu estarei aí. De alguma forma. De qualquer forma. De todas as formas. Eu tenho medo de escuro, mas sempre apago as luzes só para te ver melhor.

domingo, 20 de novembro de 2011

"Como é que eu troco de canal?"

Esses dias são raros, mas eles existem. E corroem. A cabeça lateja tanto que é preciso fechar os olhos pra não chorar. Para não chorar pela dor de cabeça? Não, não só por isso, por tudo. Alguns diriam que isso é drama de adolescente que não tem do que reclamar, outros diriam que compreendem e se sentem da mesma forma, eu não digo nada. Nadinha. Silêncio profundo que enche o sábado, o domingo e mais ainda as segundas. Vai dando uma moleza inexplicável, uma preguiça de tudo e uma vontade de pegar a escada da dispensa, colocar na frente do guarda-roupa e tirar do maleiro aquela mala antiga empoeirada, soprá-la e colocar ali todas as roupas e todos os sonhos e ir embora. Sem rumo, sem ninguém. Mas nada é feito, apenas me ajeito no sofá e deixo as lágrimas caírem. Eu poderia ligar para uma amiga e pedir companhia, poderia chamar minha irmã e pedir para ela me contar uma história, poderia mandar mensagens no celular de tanta gente, poderia ir ao shopping... Ah, eu poderia muitas coisas, mas eu não faço nada disso porque eu sei de mim. Eu sei que há males dentro de mim que só a solidão cura. Só me resta apagar a luz e ir dormir. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pra cuidar de nós dois.

Eu te deixei sozinho porque você pediu. Fechei a porta e andei com as pernas bambas até o meu carro. Queria ter ficado e segurado um pouco a sua mão, mas o que me traria segurança poderia te trazer angústia e naquele momento, eu só pensava que-se-dane-a-minha-segurança porque era a sua que me importava. Um pensamento um pouco tolo talvez, eu sei bem. O seu silêncio está me ferindo sim, amor, mas espero que ele te ajude a organizar seus pensamentos e quando você se sentir preparado, venha e me diga o que atormenta. Meus ouvidos estão prontos para te ouvir e eu não vou dizer que é drama nem mesmo ignorarei palavra alguma, vou te ouvir e te darei mil e uma razões para que você não se sinta assim.

Você não sabe, mas desde a primeira vez que eu te vi, eu te assisto. Assisto de uma forma só minha. De uma forma meio errada, meio aflita, sinto urgência por você. Eu sempre te observo dormir, mas você não sabe disso. Sempre te vejo aproveitando as noites em que eu não estou, te faço cafuné quando o sono está demorando a chegar, seguro sua mão quando você sai para passear com o cachorro, te dou beijo de bom dia, bagunço seu cabelo quando você sai do banho. Mas quando você está assim, todo tristonho, eu não consigo fazer nada disso. Nem ouso. Tenho medo de te assustar com essa minha vontade de estar sempre aos arredores, tenho medo de fazer você se cansar de mim ou fugir pra bem longe e aí eu só deito em sua cama te observando. Observo quieta. Observo calada. Só observo. Tento te dar toda a força que eu guardo dentro de mim, tento te aninhar nos meus braços, tento sussurrar que você me tem por perto e que eu não quero te ver dessa forma, mas você não me ouve e não me quer por perto. E novamente, eu te respeito e vôo pra fora da sua janela. Mas continuo parada do lado de fora sem que você me veja.

Fico só esperando algum sinal seu que demonstre que você quer me deixar entrar de novo. Só basta um sinal e eu ressurgirei ao seu lado pra cuidar de nós dois.

Chuva e tinta azul.

1.

"Alô?", ela atendeu desinteressada e segurou o telefone entre o ombro e a bochecha lambuzada de tinta. Estava pintando um quadro novo e odiava ser interrompida, mas nunca deixava de atender ao telefone, mesmo sabendo que nunca era alguém importante. O telefone continuou mudo e ela mordiscava o lábio inferior enquanto fazia tracejados fortes na face de um rosto. Ouviu um suspiro. "Olha, não estou afim de trotes, estou ocupada demais nesse momento. Então, até mais...", ela sussurrou enquanto soltava o pincel na mesa mais próxima.
"Desculpa!", aquela voz que ela conhecia tão bem sussurrou e pigarreou antes de continuar, "Eu não queria te atrapalhar, você está pintando?", ela segurou o telefone firme com a mão esquerda e suspirou silenciosamente enquanto revirava os olhos e limpava a mão direita no avental.
"Eduardo?", ela perguntou com a voz áspera.
"Sim... Não queria atrapalhar, você está pintando?", ele foi insistente na pergunta.
"Estou, preciso de dinheiro, não é mesmo?", acidez em excesso para uma garota tão linda como ela. Morena, traços delicados, olhos cor-de-mel, ondas magníficas no cabelo, leveza no andar.
"Todos precisamos, Beatriz...", ele sussurrou quase que em forma de suspiro e se segurou para não dizer tudo de uma vez.
"Mas e você? O que você quer?", a armadura era forte demais, demais, demais.
"Queria conversar, mas já vi que agora não dá. Quer tomar um café mais tarde?", ele sorriu do outro lado enquanto desabotoava o colar da sua blusa. As pessoas do trabalho se assustariam se percebessem como ele estava suando.
"Pode ser...", ela respondeu com desdém para terminar logo com aquilo.
"Então, passo no seu ateliê as três, tudo bem?"
"Ok, até mais!", ela não esperou resposta e desligou. Colocou o telefone ao lado do pincel jogado e passou suas mãos — ainda um pouco sujas — pelo rosto e sentiu as lágrimas borbulharem pelos olhos. Eduardo era o amor-eterno que ela perdera antes do fim da eternidade.


2.

Eduardo desceu do carro olhando para os pés. O porte físico dele era do tipo de rapaz que está sempre seguro de si, mas naquele momento ele era apenas um moço cabisbaixo contando seus próprios passos. 23 passos até chegar na porta do ateliê de Beatriz com três minutos de atecedência. Estalou todos os dedos enquanto encarava o interfone e passou continuamente a mão pela barba enquanto forçava caretas para si mesmo. Já haviam se passado os três minutos e ele tomou coragem.
Apertou uma vez.
Esperou alguns segundos e olhou ao redor.
Apertou duas vezes.
Esperou alguns segundos e olhou ao redor.
Apertou três vezes.
Colocou as mãos no bolso da calça e chutou uma pedrinha que estava do lado de seu pé direito. A cabeça começou a latejar e ele semicerrou os olhos enquanto dava alguns passos para trás e olhava as janelas do ateliê: todas fechadas. Antes de retirar as mãos do bolso, pegou um guardanapo que ali se encontrava e uma caneta.
"Não tenha medo de mim, Beatriz. Eu quero conversar, eu preciso conversar. Amanhã vou te ligar novamente, espero que você não fuja como fez hoje. Um beijo, Eduardo.", ele escreveu com aquela letra um pouco torta e jogou embaixo da porta. Deu uma última olhadela e contou 23 passos de volta ao carro. Sentou-se no banco, suspirou e deu a partida. Mas ele não sabia que Beatriz estava encostada do outro lado da porta enquanto ele achava que ela tinha ido embora. Ela estava lá, parada e quando ele jogou o guardanapo, ela o pegou no mesmo momento. Cheirou o papel, sentiu o peito disparar e leu mil vezes as palavras escritas por ele. Beatriz estava amedrontada... Ela o amava demais e tinha medo dele voltar, bagunçá-la completamente e partir novamente.


3.

Seis horas da manhã. Eduardo com seu cigarro estava encostado na porta do ateliê de Beatriz. Ele sabia que ali ela não tinha dormido e que a qualquer momento ela chegaria. Ele não se importava em chegar um pouco atrasado no trabalho, ele só precisava olhá-la de perto, sentir aquele cheiro de jasmim e dizer o que estava entalado. Viu um carro parar ao longe, mas não viu a expressão da menina que estava dentro do carro. O pânico tomou conta dela enquanto ela desligava o motor porque naquele momento não dava para fugir. Ele sentiu o peito acelerar e ela sentiu como se fosse desmaiar antes de pisar no asfalto. Mas ambos se controlaram. Beatriz passou a mão pelos cabelos e mordeu seu lábio inferior enquanto abriu a porta e descia graciosamente com aquele ar de "não-ligo" e Eduardo jogou seu cigarro no chão e pisou no mesmo enquanto roçava a mão na barba e tossia. Ela foi se aproximando e ele foi se esquecendo do seu discurso previamente ensaiado em frente aos espelhos de todos os locais. Palavras sumindo feito fumaça enquanto ela se aproximava mais e mais. Palavras inexistentes quando ela estava há um passo de distância...
"Bom dia, senhor! Como posso ajudá-lo?", ela disse num tom leve e divertido levantando a sobrancelha. Não podia transparecer a vontade de chorar só por achá-lo tão lindo e nem mesmo a vontade de correr pra bem longe dali. Ela tinha que transparecer a paz que ela não estava sentindo, a paz que era impossível sentir enquanto ele estivesse nos arredores.
"Eu tenho uma hora marcada pra falar com a dona desse ateliê. É você?", ele entrou no jogo, mas queria mesmo era pegar seu coração e tacá-lo contra alguma parede só para arrancar aquela palpitação absurda de si mesmo.
"Ah, sim, claro...", ela sorriu sem mostrar os dentes e retirou as chaves do bolso da calça. Ele deu licença para ela passar e ela destrancou a porta.


4.

Beatriz foi preparar um café para os dois. Sabia bem como ele queria: um cubo de açúcar, apenas. Enquanto estava de costas, começou a observar a cidade pela grande janela e pensou o que iria ouvir da boca dele. Eduardo estava sentado no sofá do outro lado do espaço e observava calmamente enquanto batucava os joelhos com as pontas dos dedos. Ela pegou as duas xícaras e andou vagarosamente até o sofá. Sentou-se ao lado dele e entregou-lhe a xícara da mão esquerda: a mais amarga. As nuvens do lado de fora começaram a se acizentar e ele sorriu dando uma golada no café.
"Acertou no açúcar...", ele sussurrou antes de colocar a xícara na mesa de centro. Passou as mãos pelo jeans e suspirou, olhando profundamente para ela. Um trovão assustou ambos e ele olhou para a janela. "Vai chover..."
"Vamos direto ao ponto, por favor!", ela disse quase que em um tom de súplica e ele sentiu a dor daquelas palavras.
"Pois então... Eu preciso falar contigo, Beatriz. Não fala nada não, por favor.", ele abaixou os olhos e olhou para suas pernas inquietas. Ela acompanhou o olhar dele e sorriu levemente quando viu o nervosismo do rapaz. "No último mês, eu tenho pensado muito, sabe? Ando pensando nos meus erros e vi que fui um tolo por ter ido embora e por ter te deixado apenas um bilhete. Você ainda me procurou por dias para me explicar o mal entendido e eu me agarrei ao meu orgulho. Eu devia ter voltado assim que você me explicou a situação toda, mas eu preferi te deixar. Mas aí, Beatriz, esses dias eu estava andando na rua do seu ateliê e comecei a pensar em nós dois, pensei feito um louco e pensei: por que eu larguei essa mulher? E bem quando eu comecei a pensar isso, a chuva começou a cair e eu vi você pela janela com um pincel de tinta azul na mão. Nessa hora, eu tive certeza que aquela eternidade que eu tanto dizia que existia entre nós dois, existe realmente. Não era nosso fim, Beatriz, me diz que você acredita nisso também. Eu preciso ouvir isso de você...", ele se aconchegou melhor no sofá e pegou as mãos finas dela.
"Eduardo...", ela fechou os olhos e engoliu em seco. "Eduardo..."
"Olha, desculpa, não quero resposta nenhuma agora. Eu só precisava te deixar saber disso. Foi a chuva e a tinta azul, dois motivos tão banais que me fizeram ter certeza que você é a mulher da minha vida.", ele se levantou e sussurrou: "Eu te ligo e você me diz alguma coisa ou não me diga nada, se você achar melhor. Eu entenderei.", ele começou a andar e ela se levantou rapidamente segurando seu braço. Outro trovão altíssimo foi escutado e a chuva começou a cair.
"Acho que a chuva quer que você fique...", ela sorriu levemente e o puxou pelo braço. "Eu sempre soube da nossa eternidade, só achava que você estava cego demais para reparar nisso.", ela finalizou antes de se deixar chover sobre ele.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A janela e o café.


O fim da tarde chegou com essa vontade de me aconchegar na cama de maneira que eu conseguisse olhar pela janela do quarto. Observei calmamente a mudança gradativa no tom de cor do céu e o vento que invadia a janela acompanhava a minha respiração. Coloquei Los Hermanos para tocar baixinho e eles repetiam que se-é-preu-te-ver-então-deixa-eu-dormir e eu sorri tristonha. Tristonha, mas serena. Minha mãe me perguntou se eu estava triste e eu fiquei em silêncio. O cheiro daquele café que ela faz antes das seis começou a me invadir as narinas e eu tive certeza de que não estava triste. Não é tristeza não, mãe, é só um cado de angústia com amor demais. Amor pelo que, filha? Deixa quieto, mãe, esquece. Angústia pelo que, filha? Nada não, o café está pronto? Peguei minha xícara em silêncio e voltei pro meu quarto. Aspirei aquela fumacinha e sorri. Encostei a cabeça na telinha que protege a janela e beberiquei um gole. Depois dois. Los Hermanos ainda tocava, só que agora falavam algo do tipo: "Alto aqui do sétimo andar / Longe, eu via você" e eu me assustei quando percebi a semelhança da cena da música com a minha cena, cantarolei sorrindo: alto-aqui-do-décimo-segundo-andar. E aí eu consegui imaginar direitinho você chegando lá embaixo, atravessando a rua, olhando pra cima pra ver se eu estava na janela, falando oi para o meu porteiro, o interfone tocando, você subindo os doze andares de elevador e eu indo até lá na porta, te abraçando, sentindo seu perfume, te beijando calmamente na bochecha porque minha mãe estaria te olhando, te oferecendo um café, te dando uma xícara, te pegando pelos dedos, te levando pro meu quarto e sentando ao seu lado na minha cama, observando a janela em silêncio, eu encostando minha cabeça no seu ombro, você fazendo um carinho leve na minha coxa e eu te olhando pelo canto do olho, você sorrindo pra mim, você segurando meu queixo e me fazendo olhar pra você, você me dando um beijo, você colocando as nossas xícaras na mesa, você me contando do seu dia para depois me beijar mais um pouco. Chacoalhei a cabeça e vi que meu café tinha acabado. Suspirei fundo e saí da janela.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Furacão.

Ele estava quieto em um canto.
Ela estava quieta noutro.
Ela se aproximou tristonha.
Ele pensou em recuar, mas continuou onde estava.
Ela roçou as pontas dos dedos pela barba por fazer dele e sussurrou:
"Escuta: me perdoa, me perdoa por ser assim, por ter esse medo absurdo. Mas você não sabe, amor, você não vê. Se eu esticar minhas mãos e te tocar, você vai sentir como eu tremo só de falar sobre isso. Se eu colocar sua mão no meu peito, você vai sentir como meu coração se dispara e para subitamente só de pensar em você. Se você abaixar as mãos um pouco mais, você pode até sentir um pouco das pontadas que meu estômago dá repentinamente só de te observar de longe. Eu sei, menino, eu sou um caos. E eu não queria ser assim. Eu não queria ficar calada de medo só por saber que eu estou submersa numa imensidão que eu desconheço... Ou que eu conheço até demais. Tenho medo do futuro não ser nada do que eu espero. Tenho medo do presente também não ser nada do que parece. Tenho medo de mim. Tenho medo de você. Eu não queria lacrimejar só porque fiquei com ciúmes do seu passado, eu não queria sumir um dia inteiro só porque eu queria que você sentisse minha falta. Eu não queria, mas eu faço essas coisas. Eu faço isso e muito mais. Eu sou ridícula, eu sou um furacão e eu posso destruir tudo, eu sei. E eu já te pedi perdão por ser assim. Mas eu te peço agora que me aceite. Não foge de mim. Atrás de tanta bagunça, tem alguém que nutriu um sentimento absurdo por você, alguém que pode até sentr raiva de você, mas essa raiva nunca supera a vontade de te ter por perto...", ela suspirou.
Os dedos dela já estavam fazendo um movimento automático de sobe-e-desce no rosto dele.
Ele a olhava calmamente.
Ela suspirou de novo.
Ele piscou várias vezes antes de tirar a mão dela de seu rosto.
Ela sorriu aliviada quando ele entrelaçou seus dedos.
"Eu não vou fugir. Eu quero ficar. Não precisa lacrimejar pelo meu passado e nem pelo futuro. Eu sei que o futuro é uma incerteza, mas eu estou aqui agora. Lacrimeje de alegria por saber que eu não tenho medo de você. Eu tenho medo de te perder, mas eu vou ficar. Eu quero você. Só você. Vou continuar onde estou e quando nós vermos, já vou ter ficado a vida inteira", ele disse antes de dar um beijo no canto da boca dela.
E a menina lacrimejou de alegria, fechando os olhos logo em seguida.
"Dorme bem, amor...", eles disseram juntos e viram que a tormenta havia passado.
O furacão havia virado brisa.
E a noite podia, enfim, se encerrar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

(Re)ver.

Você sempre foi minha certeza, meu melhor amigo. Eu lembro bem da primeira vez que eu te vi: naquela esquina do nosso antigo colégio. Todo final de aula lá estava você, lá estava eu. Trocávamos insultos que nos arrancavam risadas e eu sempre te implorava por um abraço que você sempre negava ou senão, você até que me abraçava daquele jeito meio torto que eu reclamava, mas sempre gostei. Eu falava que você não sabia abraçar e você me empurrava. Íamos embora andando, nosso caminho era o mesmo até certo ponto que eu virava uma esquininha para ir para casa da minha avó e você continuava reto. Durante o caminho, você sempre falava das minhas pernas de alicate e dos meus tropeços, eu te dava tapas nas costas e você falava: "Filha da puta, mentira, eu gosto da sua mãe" e eu ria muito. Brigávamos sério também, mas me lembro de uma vez que fomos o caminho todo abraçados depois de fazer as pazes. Você sempre foi fechado demais e lembro o tanto que me doeu quando te vi chorar no shopping, na frente de todos e eu só te olhei com o coração doendo porque fiquei sem reação. Por você ser fechado demais, lembro bem da sua mania de implicar com a minha sensibilidade, você dizia que não entendia porque eu me abalava tanto com seu jeito e eu falava que grosseria me abalava e começava a repetir sobre a sua frieza. As várias bebedeiras que já tive até hoje sempre eram melhores quando você estava por perto: a nossa dancinha enquanto cantarolávamos "vamos-beber?" e nossas noites em claro brincando ou rindo ou cantando mais ou dançando. Teve aquele dia que dez da manhã eu estava deitada no seu colo e do nada soltei um "Mimimi" e você estava meio dormindo e gargalhou sonâmbulo enquanto a TV passava algum desenho animado baixinho. E chegou o dia que você teve que ir embora pra bem-longe-daqui. Nunca te contei, mas depois daquele abraço demorado que nós demos na sua festa de despedida, eu cheguei em casa trêmula e chorei como um bebê. É inevitável um distanciamento das almas quando a distância física surge, mas nós continuamos, lembro de você dizer que estávamos a "uma mensagem no celular de distância" e eu sempre concordei. Eu te ligava bêbada e pedia para você dizer que ainda gostava de mim e você falava que isso não era preciso falar e logo depois falava: "Shiu, não me pede prova de amizade". Você me mandava mensagem contando o que havia feito naquela noite de sexta-feira quente e eu ria porque você não havia saído com a loira-gatíssima porque tinha esquecido o dinheiro em casa. Você já me magoou demais desde que se foi pro lado de lá, mas nada foi o suficiente para me fazer deixar de sentir essa imensidão de carinho dentro de mim. Nos últimos tempos, a certeza permanece, apesar de você já não aparecer tanto assim. Mas eu só queria te dizer umas oito vezes seguidas o tanto que você significa pra mim. A saudade está grande e a vontade de te abraçar — daquele jeito meio torto — está maior ainda. Não me esquece, por favor. Eu preciso muito te (re)ver.

domingo, 23 de outubro de 2011

Universo Paralelo.


Pisquei os olhos e me vi combinando com você o nosso futuro. O meu futuro, mesmo nessas nossas conversas, é meio incerto: ainda não sei se vou ser hippie, bióloga ou psicóloga. Eu preferiria ser o primeiro, dirigir uma kombi e te pegar pelas mãos sem preocupações. Mas não será bem assim...Você vai fazer medicina e será o mais viciado no cheiro do formol que exala pelos laboratórios dos cadáveres que você vai tanto amar. Vou te negar abraço depois das aulas de anatomia, isso já foi decretado. Você vai se formar e em dois mil e dezoito vamos nos casar. Até lá eu já espero ter dado um jeito na minha vida também. Vamos nos casar no dia quatorze de setembro, para ser mais exata. Algumas semanas depois, vamos viajar pra nossa lua-de-mel. Já falamos sobre ser em Paris, na Argentina ou na Holanda... Mas pouco importa o local se vamos mesmo é ficar trancados no quarto do hotel o dia todo — isso foi você quem disse. Teremos cinco cachorros, dois gatos e um unicórnio. O unicórnio vai se chamar Nico porque somos criativos e o resto não decidimos. Teremos dois filhos, mas você disse que quer quatro — depois eu te faço mudar de ideia —, eu sei que a menina vai se chamar Sophia porque parece nome de princesa e o menino você quem decide, mas tente colocar um nome bonito, por favor. Você vai ser o melhor pai do mundo, eu vou ser a melhor mãe do mundo. No nosso jardim, vão ter muitas borboletas e não tente discutir isso comigo. Você, como excelente médico, vai salvar nossa família quando dermos nossos ataques de hipocondria. Você vai cuidar de mim, eu vou cuidar de você. Você vai falar espanhol pra mim. Eu vou tentar falar francês pra você. Vamos ver o Sol nascer juntos. Você vai gostar de dar beijos na minha nuca. Eu vou gostar de te bater de vez em quando. Vou rir quando ficarmos bêbados juntos, mas vamos dar lições de moral pros nossos filhos serem mais responsáveis em relação a bebida. Vou te obrigar a cantar pra mim. Vou cantar pra você quando você quiser e vou fazer questão de desafinar só pra te irritar. Vou gostar de você em todos os Natais da minha vida. E sempre que eu fecho os olhos antes de dormir, consigo adicionar detalhes pra essa história que nem começou, mas parece existir há tempos. Às vezes, tenho quase certeza que existe um universo paralelo em que nós temos uma vida juntos porque só isso explicaria tantos planos e sonhos que parecem estar tão perto das minhas mãos, mesmo estando tão distantes. Mesmo parecendo tão impossíveis.

sábado, 22 de outubro de 2011

Menos, menina.


Olha, eu não devia estar surgindo agora, eu não deveria surgir, mas eu estou aqui porque preciso estar, preciso falar contigo, preciso chacoalhar seus ombros e te obrigar a olhar dentro de si mesma. Desculpe por ter vindo sem avisar, desculpe por ter entrado e sentado no seu sofá sem você me convidar, desculpe por ter te acordado do sonho. Desculpe mesmo. Vou dizer o que tenho para dizer antes que você me expulse... Tira o pé do acelerador, menina. A vida corre, sim, mas isso não significa que você precisa correr o risco de atropelar seus sentimentos da pior maneira. Tira o pé do acelerador, aperta um pouco o freio e respira fundo porque essa viagem está só começando. Não mergulhe tão fundo de cabeça e de olhos fechados, você não sabe se lá embaixo só há pedras te esperando e você não sabe dos perigos que existem nesse mar. Não voe tão alto porque a qualquer momento uma tempestade pode cair e te derrubar das nuvens. Não acredite em todas as palavras que você ouve, você já leu textos demais que afirmam que as palavras e as ações só são verdade quando andam juntos e você sabe que esses textos são sinceros . Lembre-se das histórias que já te contaram sobre corações partidos... Melhor: lembre-se do seu coração partido, tão miúdo e dolorido enquanto você chorava baixinho pelos cantos. Lembra? Lembra daquele ano que seu ursinho de pelúcia não aguentava mais te consolar porque todos os dias você sussurrava tristezas na orelha vermelhinha dele? Lembra, garota, lembra... Lembra daquela vez que você mergulhou tão fundo e quase se afogou. Lembra dos castelos de areia que desmoronaram quando você jurou que estava tendo algum progresso. Não se importe em ficar por enquanto só chutando as ondas fraquinhas que não te fazem nem cócegas. Não estou te pedindo pra fugir, estou te pedindo para ficar: fica onde você está, mas fica calma. E eu sei que é um pouco tarde para te pedir isso, mas tente não se apaixonar, menina. Não agora, não tão rápido. Por favor. Eu te imploro. Respira fundo e entra devagar nesse mar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Não vou escrever sobre você.


Eu não ia escrever sobre você porque não sei como fazer isso. Eu só sei escrever sobre pessoas que saíram da minha vida ou sobre personagens invisíveis, não sei escrever sobre você. Eu não podia escrever sobre você porque quando eu escrevo sobre alguém, eu me assusto com minhas próprias palavras e me escondo com meus papéis e fico assombrada por tempos e tempos e as palavras jorram e escapolem e me ferem e me cortam e criam coisas dentro de mim. Não gosto dos meus tracejados, mas acredito na magia deles... Por isso que eu não devia escrever sobre você: eu tenho medo. Medo de abrir espaço e dar ar para isso nascer, crescer e viver dentro de mim.

Eu juro que não podia escrever sobre você, mas noite passada eu me peguei triste, menino, a tristeza me invadiu fundo e só seu nome rondava minha cabeça. Não pense que a culpa é sua, não não, a culpa não é sua... Eu não fiquei triste por você, eu fiquei triste por mim, mas com o pensamento em você. O que eu posso dizer para te explicar melhor? Eu me senti toda atrapalhada e amedrontada, acho que é isso, entende? Não, você não entende. Se nem eu entendo, você não entende. Eu não devia escrever sobre você, mas estou aqui porque quero ver se ao menos minhas palavras alcançam algum sentido.

Eu não ia escrever sobre você, mas começou a tocar aquela música que me lembra você. Eu não ia escrever sobre você, mas falaram algo na rua que me lembrou você. Eu não ia escrever sobre você, mas você me ligou. Eu não ia escrever sobre você, mas eu te liguei. Eu não ia escrever sobre você, mas meu pensamento se inchou de tanto "você" na minha cabeça que eu me rendi. Olhei pra mim mesma e falei: "É isso que você quer? Ok! Vou escrever sobre o tal, mas depois não reclama". Eu sei o risco que eu estou correndo enquanto escrevo sobre você, mas eu sei mais ainda que minha cabeça corria o risco de explodir se eu não escrevesse. Juro que não estou exagerando, juro mesmo.

Mas agora que eu já estou escrevendo sobre você, não sei o que falar. As palavras sumiram como mágica... Três parágrafos tentando dizer algo e não dizendo nada. E o que eu poderia acrescentar? Frases sem sentidos explicando o que me faz cantarolar "você-não-sai-do-meu-pensamento"? Relatar sobre as famosas horas iguais que eu tanto tenho visto esses dias? Reescrever as coisas que você me diz e que me arrancam tantos sorrisos e risadas? Expor no papel a minha vontade de te abraçar? A minha vontade de te agradecer? Não, não, deixa tudo isso pra próxima... Agora eu só vou dizer uma coisa, agora eu só quero te pedir pra não deixar esse carinho se acabar. Não deixa, por favor, não estou pedindo para criar um mundo encantado, não é isso... Só estou te pedindo para conservar essa compatibilidade instantânea que eu senti com você. Não some, não me esquece, não foge, não desaparece: continua aqui. Só isso: continua aqui. Eu não devia escrever sobre você, mas escrevi.