terça-feira, 29 de novembro de 2011

Paris.


Mon amour, 

Cheguei agora em Paris e havia prometido que lhe escreveria assim que chegasse e sem exageros, é isto que eu estou fazendo. Nunca te entreguei carta alguma, mas já te escrevi milhares delas. Aquelas noites em que você dormia rápido demais, eu acendia o abajur e rabiscava palavras enquanto eu te olhava dormir. Nada demais, nada muito útil, bobagens apenas. Agora estou longe demais para me envergonhar por ter esse coração de menino, então vou te dizer: eu costumava me referir a você como um acidente. Mon accident. O acidente mais catastrófico de uma quinta-feira às três da tarde em que eu caminhava distraído pela rua. Não digo que você apareceu por acaso porque não acredito nessas bobagens, mas digo que você foi tudo que um acidente é: você foi a colisão, o sangue, a tragédia e a morte. A morte de quem eu não suportava mais chamar de "eu". Você foi o acidente que me tirou da minha vida e me abriu as portas de uma vida nova. Não estou exagerando.

O tempo aqui é agradável, bem do jeito que nós imaginamos. Eu me imaginava aqui contigo, mas sei que não você não pôde vir, eu compreendo apesar de achar que essa cama de casal é grande demais para mim. Mas eu não vou trazer mulher alguma pra cá, não se preocupe. Paris é a cidade do amor, não é? Ville de L'amour. (Ou seria Veneza? Desculpe, não sei mesmo). Mas se for mesmo a cidade do amor, quero dizer que é tudo bobagem. Seria se você estivesse aqui, mas agora a cidade do amor pra mim é São Paulo, mesmo com toda a fumaça e a intoxicação pela poluição... Porque é aí que você se esconde no nosso apartamento com seu gato, suas danças malucas e sua saia de hippie que você veste só para sentar na sacada e fazer pose. Por falar nisso, quando (e se) for responder essa carta, me mande uma foto sua vestida assim? Vou colocar aqui no criado mudo ao lado da miniatura da torre.

Não pense que eu queria ter vindo, se a escolha fosse minha, eu teria ficado. Espero que você saiba. Não pense que eu fugi por causa daquela nossa briga, mas coloque na sua cabeça avoada que eu vim a trabalho, apenas. Então, enquanto eu não estiver aí, vê se você se cuida. Come direito, não esquece de dar comida pro Tico, não esquece de colocar o lixo pra fora, não esquece de pensar em mim, não fica com medo quando chover demais, quando acabar a luz pega uma vela na última gaveta do seu armário da cozinha e acenda, saia com as suas amigas, não chore porque eu estou longe, dorme só do seu lado da cama e abraça meu travesseiro, vá à faculdade, pode me mandar e-mails falando mal da nossa vizinha e continue radiando essa beleza. Não tenho medo do que os outros caras vão pensar ao te olhar porque eu sei de nós. Eu acredito em nós.

Fica em paz, meu acidente. Mês que vem eu estou de volta. Enquanto você se colidir em mim, vou adorar estar sempre a um passo da morte, você sabe. Je t'aime tant.

Com carinho,
do teu.

Um comentário:

Sara R. Carneiro disse...

Bravo! Belíssimo texto! Gostei muito da maneira como você descreve o sentimento entre os personagens, me fez ter vontade de viver algo assim tão verdadeiro. Sucesso sempre! O blog é lindíssimo *-* Te sigo :3
Um beijo!


http://sara-rsc.blogspot.com/