terça-feira, 15 de novembro de 2011

Chuva e tinta azul.

1.

"Alô?", ela atendeu desinteressada e segurou o telefone entre o ombro e a bochecha lambuzada de tinta. Estava pintando um quadro novo e odiava ser interrompida, mas nunca deixava de atender ao telefone, mesmo sabendo que nunca era alguém importante. O telefone continuou mudo e ela mordiscava o lábio inferior enquanto fazia tracejados fortes na face de um rosto. Ouviu um suspiro. "Olha, não estou afim de trotes, estou ocupada demais nesse momento. Então, até mais...", ela sussurrou enquanto soltava o pincel na mesa mais próxima.
"Desculpa!", aquela voz que ela conhecia tão bem sussurrou e pigarreou antes de continuar, "Eu não queria te atrapalhar, você está pintando?", ela segurou o telefone firme com a mão esquerda e suspirou silenciosamente enquanto revirava os olhos e limpava a mão direita no avental.
"Eduardo?", ela perguntou com a voz áspera.
"Sim... Não queria atrapalhar, você está pintando?", ele foi insistente na pergunta.
"Estou, preciso de dinheiro, não é mesmo?", acidez em excesso para uma garota tão linda como ela. Morena, traços delicados, olhos cor-de-mel, ondas magníficas no cabelo, leveza no andar.
"Todos precisamos, Beatriz...", ele sussurrou quase que em forma de suspiro e se segurou para não dizer tudo de uma vez.
"Mas e você? O que você quer?", a armadura era forte demais, demais, demais.
"Queria conversar, mas já vi que agora não dá. Quer tomar um café mais tarde?", ele sorriu do outro lado enquanto desabotoava o colar da sua blusa. As pessoas do trabalho se assustariam se percebessem como ele estava suando.
"Pode ser...", ela respondeu com desdém para terminar logo com aquilo.
"Então, passo no seu ateliê as três, tudo bem?"
"Ok, até mais!", ela não esperou resposta e desligou. Colocou o telefone ao lado do pincel jogado e passou suas mãos — ainda um pouco sujas — pelo rosto e sentiu as lágrimas borbulharem pelos olhos. Eduardo era o amor-eterno que ela perdera antes do fim da eternidade.


2.

Eduardo desceu do carro olhando para os pés. O porte físico dele era do tipo de rapaz que está sempre seguro de si, mas naquele momento ele era apenas um moço cabisbaixo contando seus próprios passos. 23 passos até chegar na porta do ateliê de Beatriz com três minutos de atecedência. Estalou todos os dedos enquanto encarava o interfone e passou continuamente a mão pela barba enquanto forçava caretas para si mesmo. Já haviam se passado os três minutos e ele tomou coragem.
Apertou uma vez.
Esperou alguns segundos e olhou ao redor.
Apertou duas vezes.
Esperou alguns segundos e olhou ao redor.
Apertou três vezes.
Colocou as mãos no bolso da calça e chutou uma pedrinha que estava do lado de seu pé direito. A cabeça começou a latejar e ele semicerrou os olhos enquanto dava alguns passos para trás e olhava as janelas do ateliê: todas fechadas. Antes de retirar as mãos do bolso, pegou um guardanapo que ali se encontrava e uma caneta.
"Não tenha medo de mim, Beatriz. Eu quero conversar, eu preciso conversar. Amanhã vou te ligar novamente, espero que você não fuja como fez hoje. Um beijo, Eduardo.", ele escreveu com aquela letra um pouco torta e jogou embaixo da porta. Deu uma última olhadela e contou 23 passos de volta ao carro. Sentou-se no banco, suspirou e deu a partida. Mas ele não sabia que Beatriz estava encostada do outro lado da porta enquanto ele achava que ela tinha ido embora. Ela estava lá, parada e quando ele jogou o guardanapo, ela o pegou no mesmo momento. Cheirou o papel, sentiu o peito disparar e leu mil vezes as palavras escritas por ele. Beatriz estava amedrontada... Ela o amava demais e tinha medo dele voltar, bagunçá-la completamente e partir novamente.


3.

Seis horas da manhã. Eduardo com seu cigarro estava encostado na porta do ateliê de Beatriz. Ele sabia que ali ela não tinha dormido e que a qualquer momento ela chegaria. Ele não se importava em chegar um pouco atrasado no trabalho, ele só precisava olhá-la de perto, sentir aquele cheiro de jasmim e dizer o que estava entalado. Viu um carro parar ao longe, mas não viu a expressão da menina que estava dentro do carro. O pânico tomou conta dela enquanto ela desligava o motor porque naquele momento não dava para fugir. Ele sentiu o peito acelerar e ela sentiu como se fosse desmaiar antes de pisar no asfalto. Mas ambos se controlaram. Beatriz passou a mão pelos cabelos e mordeu seu lábio inferior enquanto abriu a porta e descia graciosamente com aquele ar de "não-ligo" e Eduardo jogou seu cigarro no chão e pisou no mesmo enquanto roçava a mão na barba e tossia. Ela foi se aproximando e ele foi se esquecendo do seu discurso previamente ensaiado em frente aos espelhos de todos os locais. Palavras sumindo feito fumaça enquanto ela se aproximava mais e mais. Palavras inexistentes quando ela estava há um passo de distância...
"Bom dia, senhor! Como posso ajudá-lo?", ela disse num tom leve e divertido levantando a sobrancelha. Não podia transparecer a vontade de chorar só por achá-lo tão lindo e nem mesmo a vontade de correr pra bem longe dali. Ela tinha que transparecer a paz que ela não estava sentindo, a paz que era impossível sentir enquanto ele estivesse nos arredores.
"Eu tenho uma hora marcada pra falar com a dona desse ateliê. É você?", ele entrou no jogo, mas queria mesmo era pegar seu coração e tacá-lo contra alguma parede só para arrancar aquela palpitação absurda de si mesmo.
"Ah, sim, claro...", ela sorriu sem mostrar os dentes e retirou as chaves do bolso da calça. Ele deu licença para ela passar e ela destrancou a porta.


4.

Beatriz foi preparar um café para os dois. Sabia bem como ele queria: um cubo de açúcar, apenas. Enquanto estava de costas, começou a observar a cidade pela grande janela e pensou o que iria ouvir da boca dele. Eduardo estava sentado no sofá do outro lado do espaço e observava calmamente enquanto batucava os joelhos com as pontas dos dedos. Ela pegou as duas xícaras e andou vagarosamente até o sofá. Sentou-se ao lado dele e entregou-lhe a xícara da mão esquerda: a mais amarga. As nuvens do lado de fora começaram a se acizentar e ele sorriu dando uma golada no café.
"Acertou no açúcar...", ele sussurrou antes de colocar a xícara na mesa de centro. Passou as mãos pelo jeans e suspirou, olhando profundamente para ela. Um trovão assustou ambos e ele olhou para a janela. "Vai chover..."
"Vamos direto ao ponto, por favor!", ela disse quase que em um tom de súplica e ele sentiu a dor daquelas palavras.
"Pois então... Eu preciso falar contigo, Beatriz. Não fala nada não, por favor.", ele abaixou os olhos e olhou para suas pernas inquietas. Ela acompanhou o olhar dele e sorriu levemente quando viu o nervosismo do rapaz. "No último mês, eu tenho pensado muito, sabe? Ando pensando nos meus erros e vi que fui um tolo por ter ido embora e por ter te deixado apenas um bilhete. Você ainda me procurou por dias para me explicar o mal entendido e eu me agarrei ao meu orgulho. Eu devia ter voltado assim que você me explicou a situação toda, mas eu preferi te deixar. Mas aí, Beatriz, esses dias eu estava andando na rua do seu ateliê e comecei a pensar em nós dois, pensei feito um louco e pensei: por que eu larguei essa mulher? E bem quando eu comecei a pensar isso, a chuva começou a cair e eu vi você pela janela com um pincel de tinta azul na mão. Nessa hora, eu tive certeza que aquela eternidade que eu tanto dizia que existia entre nós dois, existe realmente. Não era nosso fim, Beatriz, me diz que você acredita nisso também. Eu preciso ouvir isso de você...", ele se aconchegou melhor no sofá e pegou as mãos finas dela.
"Eduardo...", ela fechou os olhos e engoliu em seco. "Eduardo..."
"Olha, desculpa, não quero resposta nenhuma agora. Eu só precisava te deixar saber disso. Foi a chuva e a tinta azul, dois motivos tão banais que me fizeram ter certeza que você é a mulher da minha vida.", ele se levantou e sussurrou: "Eu te ligo e você me diz alguma coisa ou não me diga nada, se você achar melhor. Eu entenderei.", ele começou a andar e ela se levantou rapidamente segurando seu braço. Outro trovão altíssimo foi escutado e a chuva começou a cair.
"Acho que a chuva quer que você fique...", ela sorriu levemente e o puxou pelo braço. "Eu sempre soube da nossa eternidade, só achava que você estava cego demais para reparar nisso.", ela finalizou antes de se deixar chover sobre ele.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa... Lindo texto. Me identifiquei com a história e odeio isso, sempre choro. Mas dizem que é bom chorar, né?