sábado, 18 de fevereiro de 2012

Clichê urbano.

Chutei o latão de lixo com certa verocidade e um gato que estava parado nos arredores, soltou um grunhido estridente e saiu correndo. Meus olhos ardiam e eu não conseguia focar em nada, tudo parecia estar se movendo em velocidade rápida demais, menos o mendigo que estava deitado quase ao lado de onde o gato saíra. Queria pedir desculpas por ter espantado o bichano do coitado, mas desisti porque nada saia da minha boca. Se eu movesse meus dentes para soltar qualquer palavra, eu sentiria aquele gosto amargo na língua de novo e as náuseas — que estavam cessando — voltariam com toda a força.

"Mas que merda, Rodrigo...", aquilo estava ecoando na minha cabeça e eu ainda andava a passos lentos demais. Uma puta parada na esquina tentou me puxar pela jaqueta e eu me desvencilhei com certa dificuldade, mas quase me rendi e falei: como pagamento eu te dou um revólver e você me mata, pode ser? Desisti quando os olhos dela se fixaram nos meus enquanto ela ficava me chamando de "garotão", senti nojo e as náuseas voltaram. Quando já havia me distanciado dela, apoiei meu braço num muro e abaixei a cabeça tentando eliminar o que me incomodava. Álcool, cigarro e todas as merdas que me ofereceram estavam se embrulhando dentro de mim e eu só queria voltar há algumas horas antes e mudar o roteiro daquela noite incrível. Incrível. Não consegui vomitar, não consegui voltar no tempo e fiquei parado naquele muro por sei lá quanto tempo. Vendo o chão se mover sem eu sair do lugar.

Enfiei a mão no bolso da jaqueta, peguei meu celular com o visor arranhado e digitei os números que saíam como se estivessem grudados nas pontas dos meus dedos. O braço direito apoiado no muro ainda enquanto eu segurava o celular com a mão esquerda e fechava os olhos para não cair. Chamou quinhentas vezes e ela não me atendeu. Juro que eu contei. Mas não me importei e liguei de novo. Só que para minha surpresa, ela atendeu meio sonolenta e com aquela voz angelical que qualquer um que não a conhecesse bem, se apaixonaria:

— Que foi, Rodrigo? Eu estava dormindo. — E lá estava o anjo queimado pela amargura.
— Quero te perguntar uma coisa. — Meu estômago rodava dentro de mim e eu fui abaixando abaixando abaixando até estar sentado no chão com a cabeça contra o muro. Abri os olhos e observei o muro da frente que estava escrito: "Mais amor, por favor". Quis gargalhar com aquela ironia.
— Pergunta. — Provavelmente ela havia se ajeitado na cama e estava olhando para o teto, como sempre fazia quando estava irritada.
— Você concorda com a frase "Mais amor, por favor"? — Perguntei rindo e ela continuou calada. — Desculpa, não era isso. Só está escrito no muro aqui da frente. — Fechei os olhos e suspirei.
— Pergunta logo. — Ela estava louca para saber onde eu estava e com quem, era óbvio.
— Se eu morresse hoje, Júlia, o que você sentiria amanhã? — Eu estava maluco, não era nada daquilo que eu queria perguntar, mas saiu feito música pela minha boca. Ela não respondeu e já que eu havia perguntado, me mantive firme. — Responde.
— Desculpa, tava acendendo um cigarro. — Ela soprou. — Eu choraria, Rodrigo.
— Você apareceria no meu velório? Digo, lembrando que eu sou um cretino. — O discurso estava pronto na minha cabeça, mas eu não sabia o que estava dizendo. Engoli em seco.
— Apareceria, claro. — Aquele tom de desdém me arranhava como arame farpado passando pelo meu peito e descendo pela barriga.
— E se eu pular na frente de um carro agora falando com você? — Abri os olhos e observei a rua deserta.
— Você não faria isso. — Ela riu e soprou de novo.
— Não? — Vi dois faróis vindos lá longe. — Tem um carro vindo ali... E se você repetir aquele "Que merda, Rodrigo", eu juro por Deus que pulo pro meio da rua.
— Você nem acredita em Deus. — Maldita.
— Foda-se, Júlia. Foda-se! — Eu me levantei devagar e observei os faróis há uns três quarteirões de distância. — Você me deixou infeliz demais. Como pode? Ninguém nunca me fez tão bem nem tão mal quanto você. E agora, Júlia? — Eu senti umas lágrimas ardidas caindo pela minha bochecha e dei um passo pra frente.
— Você começou tudo isso, babaca. — Ela falou como se tivesse certeza absoluta que eu não pularia. Mas e se eu pulasse? Analisei a rua e o carro e a rua e o carro e o celular. Ela ainda me amava, eu não podia causar aquela dor a ela.
— Você ainda me ama? — Perguntei para averiguar minha teoria.
— Não. — Mentira.
— Mesmo?
— Mesmo. — Mentira.
— Fala com todas as letras que não me ama, corre, o carro está chegando. — Ouvi a respiração ofegante dela.
— Merda! — Ela berrou. — Eu ainda te amo. — Soltei uma risada nervosa.
— Obrigada. — Suspirei e o carro passou por mim com quatro bêbados dentro gritando "viadinho".
— Onde você tá? — Primeira pergunta que ela estava se mordendo para fazer desde o começo.
— Na Augusta. — Fechei os olhos, olhei pro céu e olhei pro chão que estava se movendo mais devagar.
— Volta pra casa. — Ela suplicou baixinho.
— Já vou.

(Eu a fazia feliz só de pirraça e quando via, ela me fazia feliz sem esforço algum. Ela pegava meu pulso no meio da noite e sempre me assustava com esse jeito violento de me dar carinho. Eu me aproximava para beijar sua nuca e ela sempre se levantava para pegar água. Ela me pedia pra ir embora e eu sempre ia. Ia embora querendo morrer, querendo me matar, querendo matá-la também, mas sabendo que ela me chamaria. Porque ela sempre chamava e eu sempre voltava. Éramos opostos que não se atraiam, mas estávamos dispostos a contrariar a todos. Contrariávamos as leis da realidade, contrariávamos a nós mesmos e éramos dois fugitivos que se amavam acima de tudo. Vivíamos pelo impulso, pela urgência. Vivíamos como se estivéssemos com as armas apontadas contra nossas cabeças. Contando sempre os minutos para o fim chegar).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Telefone.

Fazia tempo que eu não te escrevia nada. Minha cabeça chegava a doer com tanto pensamento que eu não expunha por medo. Era medo de parecer mais fraca do que eu sou, medo de parecer que eu estava num caminho sem volta. Mas foi falando com você no telefone ontem que eu percebi o que sempre foi claro demais, mas que eu tentei negar para mim mesma nos últimos dias: eu não preciso ter medo de tudo isso porque já é óbvio que eu estou realmente num caminho sem volta e se isso é sinal de fraqueza, como diria Lulu Santos: pois que seja fraqueza então. Porque nada se compara ao tanto que minhas mãos ficam geladas quando você me chama daquela palavra que começa com a, nada se compara ao tanto que eu fico risonha olhando o céu enquanto falo com você ou olhando o céu enquanto penso em você, nada se compara a você pedindo desculpa porque acha que eu fiquei brava com algo que você disse e nada se compara a você me dizendo meio baixo, segundos antes da bateria do celular acabar, que eu te fiz mudar muito. Será que você não percebe que se eu fiz isso é porquê você fez algo muito grandioso comigo e em mim também? Você salvou meus dias, eu sempre te disse. E até naqueles nossos tempos de brigas, de tentativas inúteis de te tirar da minha vida, meus dias só tinham algum sentido quando eu te mandava alguma mensagem só para saber se você estava bem ou quando eu te ligava, só para ficar em silêncio e chorar baixinho no seu ouvido. Eu achava que era mais forte do que tudo isso, mas isso é mais forte do que todo o resto. E além de salvar os meus dias, você me ensinou a me esforçar para assumir meus erros, erros bobos ou erros até mesmo grandes que com certo custo, eu tento assumir e se não assumo, eu te peço desculpas sussurrando. Além disso tudo, você me mostrou uma verdade óbvia: a gente pode ter tudo na vida, mas sem amor tudo vale nada. Não pensa, então, que foi só você quem mudou. Porque eu não só mudei, como consegui sair de um caminho escuro demais que eu não achava que teria fim. Mas teve. Você chegou trazendo lápis de cor e milhares de luzes, vagalumes (cegos) e estrelas que não se apagam nunca. Eu mordi a minha língua porque achava que sabia o que era amor antes de você, mas você chegou para me mostrar que eu estava errada e que toda a teoria que eu acumulei durante esses anos, não serviriam de nada na prática entre nós. Joguei fora tudo quando eu senti o que estava nascendo. Ignorei a lógica enquanto sentia meu coração disparar com você falando do outro lado que a minha voz era a melhor do mundo. Amor não é isso ou aquilo que dizem os escritores famosos; amor varia de pessoa para pessoa. E para mim, amor é: para cada razão que surgir para querer desistir, aparecer mais um milhão de razões para querer insistir. Amor, pra mim, é você. Sem dúvida ou questionamento. É e ponto.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A história inacabada.

Todos os dias, uma folha branca terminava repleta de rabiscos inacessíveis a outras mãos que não fossem as minhas. Foram cento e quatorze folhas inundadas de sentimentos que eu não compreendia, cento e quatorze folhas de palavras que saíam sozinhas depois que eu lambia meus próprios lábios lutando contra esse impulso que vinha de dentro pra fora e de fora pra dentro. Era uma guerra diária. Eu lutava comigo mesma e sempre perdia. A minha parte vencedora, ria de mim enquanto estrangulava meu pescoço e me sussurrava as palavras que deviam ser despejadas no papel. Eu escrevia obediente e nem pensava em controlar minhas mãos que adquiriam vida própria.

Não havia começado com "Era uma vez..." e muito menos com qualquer outra tentativa de tornar a história brilhante. A voz que resmungava rouca no meu ouvido me insistia para por toda a realidade podre do mundo nas folhas e eu obedecia. Os amores ali expostos nada tinham de bonitos e eram regados por álcool em todas as quintas, queimados por cigarros em todos os dias e aquecidos por um café amargo demais. Quem lesse sentiria arrepios de agonia e não compreenderia palavra alguma. Nem eu compreendia. Eu só seguia o impulso. O impulso me pedia mais ardência nas paixões, mais brigas nos romances e eu obedecia. Chegava a dar dó das personagens.

Eu sempre acordava com uma ressaca terrível depois de virar a noite escrevendo. Ressaca alguma se compara com a ressaca de estar matando aos poucos o que de belo havia em mim. Ressaca alguma é pior do que a ressaca do excesso de palavras usadas. Palavras que poderiam ter sido jogadas debaixo do travesseiro, mas que insistiam em serem desperdiçadas jogadas nos papéis. Eu me contorcia tentando fugir da voz e não adiantava porque ela vencia todos os dias. Eu não sentia prazer algum sentindo tanta pena das minhas personagens, mas eu não podia salvá-las. Não podia pedir que elas fugissem enquanto houvesse tempo porque não havia tempo algum. Eu as controlava e a voz me controlava. O ciclo era infinito e eu não sabia o que fazer.

No dia em que eu iniciaria a folha cento e quinze que tudo mudou. Eu despertei e entendi o sentido de toda aquela guerra. Estava preparando meu café ouvindo a voz me cuspindo as próximas palavras e sorri. Sorri porque eu havia entendido tudo. A guerra travada comigo mesma tinha a ver com o medo de me encarar e de aceitar meus sentimentos. Pela primeira vez em cento e quinze dias, eu venci a mim mesma. Sem a ajuda de ninguém. Não precisei me apoiar em nenhuma certeza incerta. Não precisei recorrer a amores ou amantes. Eu fui salva por quem poderia me salvar e me destruir: eu mesma. Lambi meus lábios como da primeira vez e escrevi em letras grandes na página cento e quinze: FIM. Eu e as personagens estávamos livre. Mesmo com a história inacabada.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Lua virou Sol e eu ainda não preguei os olhos.

Não precisa girar a chave hoje, amor. Na verdade, só coloca a chave embaixo do tapete e volta pro elevador. Hoje é dia de juntar papéis e embolar todas as mentiras para incendiar, mas eu preciso de mais fósforos pois os que eu possuo não serão suficientes. Fico analisando cada mísera palavra que saiu da minha boca e vejo todas se esvaindo pelo ar como fumaça, as que foram escritas no papel estão em alto relevo querendo pular para fora das linhas e esse gosto amargo na minha boca não me deixa recuperar nenhum "eu te amo" e nenhum "sempre vou amar". Não tem como recuperar o que era dito para um alvo abstrato. Eu me joguei de tantos precipícios porque achava poético saber que tinha você para me fazer flutuar e por mais que eu soubesse que essa hora chegaria, eu não achava que cairia de forma tão violenta contra essas pedras. Não há mais poesia quando eu me encontro cara a cara com a morte. A morte do que nunca chegou a ser e eu fingia não saber.

Os CD's arranhados jogados pelo quarto, as folhas voando com o vento cortante que entra pela janela, meu violão esquecido em cima da cama e eu fechando as portas com cuidado para não acordar ninguém. A noite chega ao fim com esse cheiro de álcool exalando por todos os poros e a minha imagem se mantém irreconhecível no espelho do banheiro. Olhos tão vermelhos me encarando e eu sei que se fosse há dias atrás, sumiriam enquanto eu dormisse tranquila sabendo que meus medos eram bobos demais para serem levados a sério. Agora, esses malditos olhos vermelhos, insistem em me acompanhar aonde quer que eu vá. Só para me lembrar que mais uma vez aconteceu o que eu jurei que não aconteceria jamais. Apago todas as luzes e procuro a posição mais confortável pro sono me alcançar, mas sei que é em vão. Eu pisco e nenhum resquício de sonolência me invade, só essas lágrimas azedas que já não sabem se caem ou acumulam-se no canto do olho para me embaraçar a visão.

Vou continuar embaralhando qualquer detalhe seu com qualquer detalhe meu só para mostrar pra mim mesma que não tem como encaixar. Eu jurava que tinha, mas não tem. A válvula de encaixe era a verdade e a verdade, amor, pra onde ela foi? Somos como um daqueles brinquedos de montar que a gente chuta no meio da sala sem querer e os pedaços voam para todos os cantos. Como um cristal qualquer que por um descuido foi arremessado contra a parede do apartamento. Como qualquer coisa que era frágil demais e eu insisti em fechar os olhos, mas que o susto me fez enxergar. Abri os olhos bem quando os cacos estavam voando janela a fora. Eu me jogaria do décimo segundo andar para correr atrás de cada pedacinho. Mas o que viria depois?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mentiras e finais.

— Eu corria do mundo pra me esconder em você e agora vou ter que correr pro mundo pra me esconder de você.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tem sentido.


Nós vimos meu filme preferido juntos, você disse que eu pareço com a mocinha e eu fiz uma comparação idiota dizendo que mesmo que eu te apagasse da minha memória, igual ela, eu também te reencontraria por aí. Não seria em Montauk que está longe demais de nós dois, mas seria talvez ali na capital. Ou em qualquer outro lugar na metade da estrada. O que importa é que eu te reencontraria e mesmo sem me lembrar de nada sobre nós dois, não seria necessário mais do que alguns minutos para eu me re-apaixonar por você e te falar, meio estabanada, que iria casar com você. Tenho essa mania estranha de nos encaixar em qualquer história que eu leio, em qualquer filme que eu vejo ou em qualquer música que eu escuto. Tem algum sentido nisso?

O dia só corre bem ou só termina realmente bem quando eu consigo desenroscar esse tanto de palavras que eu tenho pra te falar. Algumas vezes eu desenrosco tagarelando no telefone e outras, eu só deixo tudo bem guardado nos meus papéis. Tudo fica meio torto e pela metade se eu não te conto. Igual daquela vez que eu caí no shopping e te liguei meio chorando e rindo. Igual das outras vezes que eu te contei histórias de anos atrás como se fossem recentes só para nos colocar numa máquina do tempo e te mostrar que tudo só faz realmente sentido se eu compartilho com você. As histórias da infância ou qualquer coisa do meu dia-a-dia, tudo está recheado de você. Mesmo que você não tenha dançado comigo, mesmo que você não tenha me ajudado a levantar quando eu caí. Mesmo assim. Tudo tem você. Tem algum sentido nisso?

Sempre me imagino arrumando as malas pra fugir com você, me imagino realizando tudo que a gente planeja, me imagino acordando bem do seu lado até meus noventa e seis anos e eu sempre sei, claramente, que é pra esse rumo que nosso destino aponta. Não adianta correr, não adianta ser pessimista porque a força disso tudo é maior do que qualquer outra coisa. Não adianta dizer que amor não é suficiente porque você me mostrou que amor é mais do que suficiente. Amor misturado com essa sede de nós dois, amor misturado com deslumbramento, amor misturado com realidade, amor misturado com paixão, amor misturado com todos os sentimentos bons que podem nos rodear. Eu sei que pegar na sua mão vai ser sempre a minha calmaria e que te beijar vai sempre despertar em mim tudo que eu achei que não sabia sentir. É o maior amor do mundo. E sim, tem sentido em tudo isso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Estrelas não existem só no céu.


De longe, dá pra te observar. Tranquila e sorridente. Se eu paro para te observar melhor, vejo um misto de criança bem ali no meio do seu olhar e eu tento entender que foi que aconteceu enquanto você nascia que te faz brilhar desse tanto. Brilho ofuscante. Brilho de estrela mesmo, sem exagero nenhum. Comparar você com uma estrela não tem sentido, visto que você é uma. Nunca vão saber explicar, nem sua mãe, nem seu pai e nem ninguém vão entender o que eu não entendo: que foi que aconteceu que fez essa menina brilhar tanto? Ninguém tem a resposta. Há especulações de que você caiu do céu, digo desse jeito bem brega e clichê, mas é o mais próximo da verdade.

Dá pra contar das brincadeiras, dá pra contar dos tombos que você tanto levava enquanto tentava se manter em pé nos patins, dá pra contar da sua mania de vender pipoca usando a bicicleta como carrinho aos seus oito anos. Dá pra te ver contar e recontar essa histórias deixando as lágrimas caírem depois de tanta risada. Dá pra ouvir qualquer história sua porque qualquer história sai em forma de riso. Dá pra ter reflexões sérias a respeito da vida, do ar, da rua, dos nossos pais. Dá pra te ver chorar de medo de escuro e te dar uma risada como consolo. Com você, dá pra fazer qualquer coisa. Dá pra aprender, dá pra ensinar.

Não deixa a vida te endurecer, não deixa ninguém te dizer o que fazer com seu caminho. Não deixa as pessoas se imporem e tentarem mandar nas suas decisões. Não deixa tentarem arrancar essa criança que tem no seu olhar. Não deixa tirarem seu sorriso constante. Não deixa. Junta seus patins, sobe pela escada, pega sua bicicleta e vende pipoca. Eu sei que pra uma estrela enfrentar esse mundo deve ser difícil, mas vai em frente. Sempre em frente. Ninguém tem o previlégio de guardar dentro da alma esse brilho todo que você guarda, mas eu tenho o previlégio de te acompanhar, de te entender e de te ver brilhar. Obrigada.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viajar.




Se eu pudesse alterar a rota, eu alteraria. Rasgaria qualquer mapa, ludibriaria o piloto. De nada me vale chegar no destino considerado certo se não é você quem vai me receber. Sem abraços na sala de desembarque, só uma mensagem no celular perguntando se fiz boa viagem. Apesar de você estar comigo em todos os cantos, só onde você se encontra em carne e osso que é a resposta certa pra qualquer questionamento. Entrar no avião, entrar no ônibus ou entrar no carro... Tudo faria maior sentido se o destino fosse você. Mas uma hora vai ser. Tem que ser.








quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Dom Casmurro.

"Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga."

Machado de Assis

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A gente tem que reagir.

Eu saio do banho e você insiste em enroscar cada mecha molhada do meu cabelo ao redor dos seus dedos enquanto eu me mantenho no sofá. Você fica sentado no chão nesse movimento insistente e ficamos os dois em silêncio. Quando você para, cheira sua mão e sussurra qualquer coisa querendo saber o nome do meu shampoo novo. Eu dou um sorriso desafiador enquanto cheiro as pontas dos meus fios e resmungo que não lembro. Você faz sinal me pedindo pra te dar uma beirada do sofá e eu levanto o pescoço para que você se sente e eu afunde minha cabeça no seu colo. Você estala todos seus dedos, um por um, enquanto fica me olhando. Eu fecho os olhos porque não aguento quando você tenta me invadir desse jeito e abro os olhos subitamente quando suas mãos frias afundam no meu busto e fazem um carinho forte o suficiente para deixar nossas peles com a mesma temperatura.

"Vamos viajar", você sussurra e eu encaro o teto antes de te olhar. Eu penso antes de responder e te encaro para ter certeza do que você diz. "Pra onde, amor?", eu pergunto apoiando minha mão na sua fazendo com que você pare subitamente com o carinho. "Esquece, pensei alto". O silêncio volta e eu começo a murmurar aquela nossa música antiga. Aquela que você nem deve se lembrar que é nossa música. "Que que cê tá cantando, meu bem?", você pergunta com um sorriso tímido e me sinto de volta há cinco anos atrás quando esbarrei contigo na porta daquele pub que poderia ser o cenário de qualquer tipo de história, menos de uma história de amor. Por isso que eu me pergunto se nossa história é realmente de amor. "Tô cantando nada não", eu te respondo sentindo minha garganta arranhando e continuo cantando e continuo lembrando. "Lembrei...", você solta em forma de sopro e pede pra que eu saia do seu colo. Eu levanto rápido com o coração disparado e você começa a mexer nos seus CD's do outro lado da sala. "É nossa música, não é?", você pergunta como se tivesse descoberto um novo continente e eu sorrio impotente enquanto você procura desesperado por um CD que, provavelmente, você já jogou fora.

Você desiste de procurar o bendito CD e volta para o sofá, com um olhar de quem havia perdido o mapa de qualquer tesouro valiosíssimo. Continuo apenas sentada ao seu lado, decorando novamente todos os traços do seu rosto que eu já havia decorado muito bem. "Lembrei de quando a gente quase fez amor com essa música...", você sorri e entrelaça minhas mãos com as suas. "Você lembra?", eu pergunto surpresa e aliviada. "Lembro muito bem, mas seus pais chegaram em casa, não foi?", eu faço que sim com a cabeça. "Que bom que você lembrou", eu lambo meus lábios querendo que fossem os seus, mas eu sei que é cedo para qualquer re-aproximação. "Quando foi que a gente morreu?", eu pergunto baixinho e você me olha assustado. "Repete?", você suplica e eu deixo escorrer uma lágrima. "Esquece, marújo", eu solto uma risada e você levanta uma sobrancelha. "Eu ainda visto aquela fantasia de novo pra você, sereia", meu peito se lota de alguma coisa semelhante à felicidade e eu gargalho, mas repito a pergunta logo em seguida: "Quando foi que a gente morreu?" e você não diz  nada.

Você me pede para levantar do sofá rapidinho e se deita, me puxando pela mão logo em seguida, me fazendo deitar sobre você. Minha cabeça fica no seu peito e eu começo a ouvir seu coração batendo num ritmo frenético demais. "Que foi com seu coração?", eu pergunto em tom de brincadeira e você não fala nada, só enrosca suas mãos pela minha cintura, me balançando de um lado para o outro. Eu fecho os olhos e sem ver, deixo escorrer uma lágrima. "Que foi que você tá chorando? Que foi que eu fiz?", você pergunta preocupado e beija o topo da minha cabeça umas trinta e sete vezes. "Nada, meu amor. Nada não", eu só sussurro e passo os dedos pelo seu peito para secar o pouco que eu havia te molhado. Começo a sentir você aspirando fundo o cheiro do meu cabelo.

"Ontem eu sonhei que nós dois fomos pra serra, igual você falava pra gente fazer.", você começa um novo assunto. "Por isso que você falou pra gente viajar?", pergunto baixinho e você ainda me embala de um lado para o outro deitada em cima de você. "Foi.", seu coração não diminui a velocidade e você fala: "A gente tem que reagir, coração.", você fala em tom de súplica e eu te dou um beijo no peito bem no rumo do seu coração. "Tem...", eu fecho os olhos e você me puxa para cima pela nuca pra poder depositar um beijo na minha boca. "Acredita em nós, por favor.", você pede e eu me mantenho em silêncio. "Acredita, sereia.", eu dou um sorriso e deito minha cabeça exatamente onde ela se encontrava há três segundos. "Eu já entrei a bordo, preciso aprender a andar com essas pernas...", eu embolo as palavras e engasgo com as lágrimas que estão prestes a sair. Não ouso te olhar nos olhos de novo e continuo perguntando murmurando "Quando foi que a gente morreu?" e você só começa a murmurar coisas que eu não entendo. Fico deitada em você até pegar no sono. A gente tem que reagir.