segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A gente tem que reagir.

Eu saio do banho e você insiste em enroscar cada mecha molhada do meu cabelo ao redor dos seus dedos enquanto eu me mantenho no sofá. Você fica sentado no chão nesse movimento insistente e ficamos os dois em silêncio. Quando você para, cheira sua mão e sussurra qualquer coisa querendo saber o nome do meu shampoo novo. Eu dou um sorriso desafiador enquanto cheiro as pontas dos meus fios e resmungo que não lembro. Você faz sinal me pedindo pra te dar uma beirada do sofá e eu levanto o pescoço para que você se sente e eu afunde minha cabeça no seu colo. Você estala todos seus dedos, um por um, enquanto fica me olhando. Eu fecho os olhos porque não aguento quando você tenta me invadir desse jeito e abro os olhos subitamente quando suas mãos frias afundam no meu busto e fazem um carinho forte o suficiente para deixar nossas peles com a mesma temperatura.

"Vamos viajar", você sussurra e eu encaro o teto antes de te olhar. Eu penso antes de responder e te encaro para ter certeza do que você diz. "Pra onde, amor?", eu pergunto apoiando minha mão na sua fazendo com que você pare subitamente com o carinho. "Esquece, pensei alto". O silêncio volta e eu começo a murmurar aquela nossa música antiga. Aquela que você nem deve se lembrar que é nossa música. "Que que cê tá cantando, meu bem?", você pergunta com um sorriso tímido e me sinto de volta há cinco anos atrás quando esbarrei contigo na porta daquele pub que poderia ser o cenário de qualquer tipo de história, menos de uma história de amor. Por isso que eu me pergunto se nossa história é realmente de amor. "Tô cantando nada não", eu te respondo sentindo minha garganta arranhando e continuo cantando e continuo lembrando. "Lembrei...", você solta em forma de sopro e pede pra que eu saia do seu colo. Eu levanto rápido com o coração disparado e você começa a mexer nos seus CD's do outro lado da sala. "É nossa música, não é?", você pergunta como se tivesse descoberto um novo continente e eu sorrio impotente enquanto você procura desesperado por um CD que, provavelmente, você já jogou fora.

Você desiste de procurar o bendito CD e volta para o sofá, com um olhar de quem havia perdido o mapa de qualquer tesouro valiosíssimo. Continuo apenas sentada ao seu lado, decorando novamente todos os traços do seu rosto que eu já havia decorado muito bem. "Lembrei de quando a gente quase fez amor com essa música...", você sorri e entrelaça minhas mãos com as suas. "Você lembra?", eu pergunto surpresa e aliviada. "Lembro muito bem, mas seus pais chegaram em casa, não foi?", eu faço que sim com a cabeça. "Que bom que você lembrou", eu lambo meus lábios querendo que fossem os seus, mas eu sei que é cedo para qualquer re-aproximação. "Quando foi que a gente morreu?", eu pergunto baixinho e você me olha assustado. "Repete?", você suplica e eu deixo escorrer uma lágrima. "Esquece, marújo", eu solto uma risada e você levanta uma sobrancelha. "Eu ainda visto aquela fantasia de novo pra você, sereia", meu peito se lota de alguma coisa semelhante à felicidade e eu gargalho, mas repito a pergunta logo em seguida: "Quando foi que a gente morreu?" e você não diz  nada.

Você me pede para levantar do sofá rapidinho e se deita, me puxando pela mão logo em seguida, me fazendo deitar sobre você. Minha cabeça fica no seu peito e eu começo a ouvir seu coração batendo num ritmo frenético demais. "Que foi com seu coração?", eu pergunto em tom de brincadeira e você não fala nada, só enrosca suas mãos pela minha cintura, me balançando de um lado para o outro. Eu fecho os olhos e sem ver, deixo escorrer uma lágrima. "Que foi que você tá chorando? Que foi que eu fiz?", você pergunta preocupado e beija o topo da minha cabeça umas trinta e sete vezes. "Nada, meu amor. Nada não", eu só sussurro e passo os dedos pelo seu peito para secar o pouco que eu havia te molhado. Começo a sentir você aspirando fundo o cheiro do meu cabelo.

"Ontem eu sonhei que nós dois fomos pra serra, igual você falava pra gente fazer.", você começa um novo assunto. "Por isso que você falou pra gente viajar?", pergunto baixinho e você ainda me embala de um lado para o outro deitada em cima de você. "Foi.", seu coração não diminui a velocidade e você fala: "A gente tem que reagir, coração.", você fala em tom de súplica e eu te dou um beijo no peito bem no rumo do seu coração. "Tem...", eu fecho os olhos e você me puxa para cima pela nuca pra poder depositar um beijo na minha boca. "Acredita em nós, por favor.", você pede e eu me mantenho em silêncio. "Acredita, sereia.", eu dou um sorriso e deito minha cabeça exatamente onde ela se encontrava há três segundos. "Eu já entrei a bordo, preciso aprender a andar com essas pernas...", eu embolo as palavras e engasgo com as lágrimas que estão prestes a sair. Não ouso te olhar nos olhos de novo e continuo perguntando murmurando "Quando foi que a gente morreu?" e você só começa a murmurar coisas que eu não entendo. Fico deitada em você até pegar no sono. A gente tem que reagir.

4 comentários:

Carolina F. disse...

"Quando foi que a gente morreu?"

Anônimo disse...

Pois então reaja.

letícia lemos disse...

Eu leio teus textos, garota, e desabo por dentro. Eu sinto tuas palavras, eu viajo enquanto leio, eu entro na história. Demais. Até demais. Eu amo o que você escreve, to me apaixonando por tudo aqui neste blog. Tem uma história por trás de tudo, eu sei. E ela é linda.
Parabéns.

Anônimo disse...

VOLTA PRO TUMBLR ;//