sábado, 17 de dezembro de 2011

Sem saída.

Não há mais salvação. As chances de retornar e pegar o caminho de volta se esgotaram. As chances de poder fechar os olhos sem te enxergar já se esgotaram. Até certo ponto, eu poderia fugir se eu quisesse. Eu não quis. Mas eu poderia sim, ter acenado de leve e corrido pra longe. Eu poderia, mas não quis porque eu tenho certo gosto pelo que me amedronta e você me amedrontou, logo de cara. Uma espécie de raio me atacou desde o primeiro momento e isso é inegável. Você derrubou as portas que eu havia trancado à sete chaves e nem me pediu permissão. Eu te olhava abismada e boquiaberta, mas você foi me invadindo mesmo assim.

Havia um impulso me empurrando para a saída de emergência, mas eu fui ficando, fui observando tudo cuidadosamente. Mas quando eu me descuidei por dois segundos só para te admirar no escuro, eu vi que era tarde demais. E algo dentro de mim murmurou que era pra esse rumo que meu destino apontava e que já não tinha volta. Saída de emergência? Não havia nenhuma mais e eu não queria que houvesse. Eu me desarmei para não te assustar, retirei dos bolsos aqueles papéis que ditavam regras e soube que nada daquilo serviria para nós. Somos únicos, eu tenho certeza. Não adianta ninguém vir sussurrar o que eu deveria fazer porque ninguém está nas nossas peles. Só eu e você sabemos de nós.

Não há mapa que nos ajude a chegar no tão sonhado final feliz, ninguém pode nos guiar. Por isso que eu seguro na sua mão dessa maneira, por isso que eu olho tão fixamente pra você, por isso que eu tento tanto te cuidar. Nós somos o destino e a viagem e eu não quero que você se perca, não suportaria te perder. Sou um pouco descuidada e sei bem que tropeçarei muito, mas sei que da mesma forma terei que te ajudar quando for sua vez de tropeçar. Eu nunca tive tanta disposição para acreditar em uma história como eu tenho para acreditar na nossa.

Mesmo com os olhos vermelhos depois de tanto chorar no telefone, eu sei bem da felicidade que só você me causa. Não pense que minhas lágrimas vão me afogar porque não vão. Mesmo murmurando neuroses e me mostrando frágil, eu sei da nossa força. Não pense que meus medos vão nos destruir porque não vão. Eu sei que se eu fecho os olhos, você vem. Eu sei que enquanto eu não puder ficar brincando com os dedos no seu ombro, eu tenho a sua voz. Não pense que com nossos silêncios eu vou deixar de te ouvir, porque eu não vou. Eu sei que enquanto eu não posso te cuidar da forma certa, eu posso te cuidar das minhas maneiras tortas. Você me salvou e eu não me importo que não tenha mais volta. Eu não quero outros caminhos porque neles eu não existiria completamente. Eu não quero outra vida porque sem você já não seria certo chamar de vida. Não pense que nossas tentativas de nos alcançarmos são inúteis porque eu tenho certeza que não são.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Foi só a música.

A verdade é que ela já nem se lembrava dele, não havia razão para lembrar. Ele também não se lembrava dela porque já não via mais sentido em manter sua vida fixada num passado muito distante. Eles não lembravam um do outro. Mas quando ela deitava a cabeça no travesseiro, ela sussurrava baixinho cadê-você e ele, do outro lado da cidade, rolava pela cama sentindo falta de um corpo para abraçar. Um corpo não, o corpo. O corpo dela. Mas eles não se davam conta disso e seguiam sempre em frente sem olhar para os lados, sem olhar por cima dos ombros, sem demonstrar qualquer sinal de remorso pelo fim.

Naquele momento, ela se debruçou sobre o parapeito da janela e fechou os olhos enquanto ele rondava a cidade em seu carro. Ela se manteve daquela forma por minutos ou horas, talvez, não saberia dizer enquanto ele se manteve rondando a cidade por minutos ou horas, quem sabe? Ela ajeitou seu vestido e voltou seus olhos para dentro do apartamento e a visão ficou um pouco embaraçada com aquela mistura instantânea de claridade e escuridão. Ele parou em um posto de gasolina só por parar, não fez nada além de esticar os braços, retirar os óculos escuros e sentir a visão um pouco embaraçada com aquela mistura instantânea de claridade e escuridão.

Ela arrumou sua cama, jogou água nas plantas, se olhou no espelho e se achou linda. Ele se olhou no vidro retrovisor do carro e se achou um lixo com aquela barba mal feita e aquelas olheiras. Ela precisava ligar o rádio para cantarolar enquanto arrumaria algo para comer. Ela ligou o rádio e começou a tocar aquela velha canção, como se chamava mesmo? E por falar em saudade, onde anda você? Ele precisava ligar o rádio para buscar algum consolo na voz de qualquer cantor. Ele ligou o rádio e estava tocando aquela velha canção, como se chamava mesmo? E por falar em paixão, em razão de viver, você bem que podia me aparecer.

Ela pensou em ir até o telefone, mas não. Ele procurou o celular nos bolsos da jaqueta, mas não. Mas sim. Achou. Discou. Ela ouviu o telefone tocar e pensou que coincidência grande, meu Deus, quem será? Abaixou o rádio e atendeu.

— Alô?
— Alô?
— Que coincidência, estava me lembrando de você.
— Mesmo? Pois eu também.
— Por quê?
— Por quê?
— Tocou uma música no rádio que me lembrou tanto você. Responda você agora.
— Isso que aconteceu comigo também. Que coincidência.
— Sim, que coincidência. Foi só a música?
— Não sei, foi só a música?
— Foi só a música.

Desligaram. Não havia sido apenas a música. As gargantas ficaram secas, os cigarros foram acesos, o céu ficou nublado instantaneamente, palavras permaneceram emboladas e Vinicius de Moraes continuou repetindo na mente de cada um: e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade. Onde. Anda. Você? 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pelo vento.


Eu não te peço nada, fico quieta. De que adiantaria murmurar palavras que se embaralham pela minha cabeça? Dizem que os melhores pedidos são pedidos em silêncio. Reconheço e obedeço. Estalo todos os dez dedos das mãos e observo o relógio. Nem ele me aguenta mais e de pirraça decide transformar um minuto em uma hora. O coração implora por um pouco de silêncio, mas Chico Buarque canta e eu acompanho balbuciando: eu-te-vejo-sumir-por-aí. Entro no banho e com meu dedo vou até o vapor no box e desenho um coração miúdo. Tão miúdo que ninguém saberia dizer se era um coração ou um borrão qualquer de quem só apoiou a mão para ensaboar os pés. Enquanto as gotas encharcam meu rosto, eu mantenho meus olhos fechados e nem saberia dizer o que era lágrima e o que era água do chuveiro. Tudo se mistura. Tudo se embaralha. E com a minha visão embaçada, eu já não sei mais pra onde olhar. Você se mantêm no mesmo lugar, eu me mantenho em todos os outros onde você não se encontra. Por incrível que pareça, são nesses desencontros que eu te encontro. É quando você se perde que eu te acho. Somos frágeis demais e um descuido poderia nos quebrar em milhares de pedacinhos impossíveis de serem achados novamente. Cacos que se espalhariam embaixo da fresta da porta, que voariam pela janela, que se esconderiam embaixo dos sofás. Todos os dias eu sinto que não temos mais remédio, que não temos mais saída, que estamos além da definição do amor, que nos juntamos da forma certa, mas que eu te quero da forma errada. Dá vontade de te dizer que eu preciso te deixar viver e voltar quando você tiver certeza que eu serei seu último amor, mas eu só finjo que tem um cisco nos meus olhos com essa nossa tentativa meio torta de nos abraçarmos. Porque antes que eu diga qualquer coisa, você diz que um dia vai estar ao meu lado e ainda diz que vai estar pra sempre. O nó na garganta se afrouxa, a visão vai se normalizando. Reconheço que não sei amar na medida certa, eu só sei te amar desse jeito. Não sei te entregar pedacinhos de mim. Eu não te peço nada, mas eu quero tudo. Eu não posso quase nada, mas me jogo inteira pelo vento. Basta você me sentir. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Indizível.

Os fins das noites funcionam sempre da mesma forma. Eu fecho os olhos na sua frente e digo que quero dormir, fico encostada na cadeira de olhos fechados e você acredita realmente que eu só quero dormir, mas não passa pela sua cabeça que eu fecho os olhos para não chorar na sua frente. Falando assim, parece que todos os dias você me dá motivos para chorar, mas não é isso. Eu sinto vontade de chorar, mas não é de tristeza. É só pela presença do desconhecido, de algo que não tenho mais controle, algo que me controla, que regula cada pedaço mínimo do meu dia e do meu humor. Quando eu fecho os olhos, assim, pra segurar o choro, eu fico vagando pela minha cabeça buscando palavras, mas sempre desisto por ter medo de sussurrar bobagens demais em seus ouvidos. Eu me seguro por não saber como dizer. Aquele clichê de que certos sentimentos não se encaixam em palavras, se encaixou perfeitamente para mim. Para nós. Para nossa situação. Enquanto você dorme ou está longe de casa, eu permaneço com as luzes do quarto acesas e os olhos presos no teto. Olhos arregalados, parecendo olhos de crianças assustada. Enquanto as lágrimas se acumulam e fogem pelas minhas bochechas, eu sorrio. Tento organizar meus pensamentos nos papéis, mas não cabem mais. Palavra nenhuma diz o que eu quero dizer. Tento falar da minha saudade, do meu ciúme, do seu cheiro, da sua voz e fico rondando pelo mesmo ponto, pelo mesmo amontoado de palavras que sempre dizem o que eu já havia dito antes. O que será que é preciso, então, para que eu vá além dessa mesmice de todos os meus escritos? Como eu vou conseguir explicar o que estou sentindo sem bater sempre na mesma tecla? Eu digo que quero ficar contigo pra sempre e você diz que eu vou dar pra trás e eu só consigo fechar os olhos de novo e rezar para que o dia que você não vai me querer mais, esteja bem longe de nós. Reúno todas as minhas forças para tentar te dizer o que se passa na minha cabeça, mas sempre me calo. O discurso fica estagnado na minha cabeça, mas eu desisto enquanto suspiro. Solto as palavras como um sopro. Um sopro forte que tenta te alcançar — em vão. Eu já te disse tanto, tanto, mas não quero te assustar, não quero te cansar com tentativas de explicações bobas, não quero te ver disistir enquanto observa minhas estranhezas e por isso mesmo me calo. Só eu sei o que sinto. Só eu sei como é sentir falta de você nos momentos mais desnecessários, sentir falta enquanto você diz que vai ali por cinco minutinhos e sentir falta enquanto eu sei que você vai ficar bem sem mim. Só eu sei como é reler cada palavra buscando um novo detalhe importante. Só eu sei como é sentir seu cheiro andando pela rua. Só eu sei o que é sentir tanto ciúme por bobagens. Só eu sei porque eu tenho tanta certeza de que sou eu quem ama mais. Só eu me encolho na cama esperando você me abraçar a qualquer momento e me chamar de boba, dizer que tanto medo é desnecessário e que eu te tenho bem aqui. Só eu sei que nem eu mesma sei o que sinto. É indizível o que eu tenho pra te dizer.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Paris.


Mon amour, 

Cheguei agora em Paris e havia prometido que lhe escreveria assim que chegasse e sem exageros, é isto que eu estou fazendo. Nunca te entreguei carta alguma, mas já te escrevi milhares delas. Aquelas noites em que você dormia rápido demais, eu acendia o abajur e rabiscava palavras enquanto eu te olhava dormir. Nada demais, nada muito útil, bobagens apenas. Agora estou longe demais para me envergonhar por ter esse coração de menino, então vou te dizer: eu costumava me referir a você como um acidente. Mon accident. O acidente mais catastrófico de uma quinta-feira às três da tarde em que eu caminhava distraído pela rua. Não digo que você apareceu por acaso porque não acredito nessas bobagens, mas digo que você foi tudo que um acidente é: você foi a colisão, o sangue, a tragédia e a morte. A morte de quem eu não suportava mais chamar de "eu". Você foi o acidente que me tirou da minha vida e me abriu as portas de uma vida nova. Não estou exagerando.

O tempo aqui é agradável, bem do jeito que nós imaginamos. Eu me imaginava aqui contigo, mas sei que não você não pôde vir, eu compreendo apesar de achar que essa cama de casal é grande demais para mim. Mas eu não vou trazer mulher alguma pra cá, não se preocupe. Paris é a cidade do amor, não é? Ville de L'amour. (Ou seria Veneza? Desculpe, não sei mesmo). Mas se for mesmo a cidade do amor, quero dizer que é tudo bobagem. Seria se você estivesse aqui, mas agora a cidade do amor pra mim é São Paulo, mesmo com toda a fumaça e a intoxicação pela poluição... Porque é aí que você se esconde no nosso apartamento com seu gato, suas danças malucas e sua saia de hippie que você veste só para sentar na sacada e fazer pose. Por falar nisso, quando (e se) for responder essa carta, me mande uma foto sua vestida assim? Vou colocar aqui no criado mudo ao lado da miniatura da torre.

Não pense que eu queria ter vindo, se a escolha fosse minha, eu teria ficado. Espero que você saiba. Não pense que eu fugi por causa daquela nossa briga, mas coloque na sua cabeça avoada que eu vim a trabalho, apenas. Então, enquanto eu não estiver aí, vê se você se cuida. Come direito, não esquece de dar comida pro Tico, não esquece de colocar o lixo pra fora, não esquece de pensar em mim, não fica com medo quando chover demais, quando acabar a luz pega uma vela na última gaveta do seu armário da cozinha e acenda, saia com as suas amigas, não chore porque eu estou longe, dorme só do seu lado da cama e abraça meu travesseiro, vá à faculdade, pode me mandar e-mails falando mal da nossa vizinha e continue radiando essa beleza. Não tenho medo do que os outros caras vão pensar ao te olhar porque eu sei de nós. Eu acredito em nós.

Fica em paz, meu acidente. Mês que vem eu estou de volta. Enquanto você se colidir em mim, vou adorar estar sempre a um passo da morte, você sabe. Je t'aime tant.

Com carinho,
do teu.

domingo, 27 de novembro de 2011

Das tardes, das noites e das certezas.


Você devolveu a minha inspiração. A minha margarida já tinha sido despetalada por tantos mal-me-quer pelo caminho e exagero nas palavras, mas foi você quem me deu um buquê novo e perfumado — daqueles perfumes que me fazem fechar os olhos só para sentir direito. E agora nem preciso me dar ao trabalho de despetalar nada porque eu já sei que a última pétala — e todas as outras também — são de bem-me-quer.

Não me esforço para te dizer nada, nunca precisei pensar por mais de dois segundos para que saísse alguma coisa da ponta da caneta azul. Os papéis ficam aos montes jogados pelo quarto, sujos de café, borrados com lágrimas e ao contrário do que eu era acostumada, minhas mãos não doem, meu coração não dói e minha alma não dói quando eu cito seu nome. Fica em mim a todo instante a necessidade de te procurar com meus versos tortos, com minhas palavras mudas. Invento histórias sobre nós dois para saciar essa sede estranha dentro de mim e ninguém que lesse saberia dizer o que de fato aconteceu e o que foi só sonho ou miragem. Ninguém, nem mesmo nós. Já viajamos por esse mundo e você nem sabe. Já te levei comigo pra tantos lugares e você nem se lembra.

Eu me joguei nesse abismo, sim. Alguns disseram que era um erro pular de olhos fechados e de braços abertos dessa forma. Tentaram me segurar na borda, gritaram que a qualquer momento eu iria me destruir no chão, mas eu não liguei. Eu fechei os olhos e fui. Não acredito na minha capacidade de voar, mas acredito na sua capacidade de me fazer flutuar. Tal poder vem só de você e de ninguém mais. Eu fecho os olhos, estico os braços como se tivesse asas e abro um sorriso que não mostra meus dentes e é incrível, mas me sinto em outra atmosfera, sem gravidade alguma. Eu erro sempre e nós podemos estar errando. Mas se for isso mesmo, ao menos estamos errando juntos e saiba que esse erro tem sabor de acerto. E eu sei que quando eu estiver me sentindo fraca demais engolindo minhas lágrimas no escuro, eu vou te pedir pra continuar errando comigo. Você vai dizer que aceita?

São em tardes como a de hoje que eu me divido entre observar suas fotos ou pegar aquele papel no meio daquele livro que tem tanto o seu cheiro. E nesses momentos entra em ação o meu poder estranho de me mover sem sair do lugar. Antes que eu perceba, abro os olhos e te vejo deitado ao meu lado, ouço Cazuza baixinho ao fundo, você beija meus olhos e diz que dormi demais, fecho os olhos novamente enquanto suspiro e murmuro pra você não me soltar porque eu estou cansada demais. Abro os olhos de novo e me encontro parada com seu cheiro nas minhas mãos. Não da forma que eu gostaria, mas da forma que me é permitida.

São em noites como as de hoje — como as de sempre — que eu viro cometa querendo entrar na sua órbita. Viro luz querendo iluminar seu quarto. Viro palavras querendo entrar nas suas cartas. Repito que te-amo mesmo depois de desligar o telefone e sei que você ouve. A certeza é incerta e o futuro mais ainda, mas te querer dessa maneira é o suficiente, por enquanto. Te querer inteiro, te querer por perto e te querer sem medo. Você ganhou, amor: conseguiu me virar do avesso como ninguém jamais havia conseguido.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A morte de cada dia.

Eu morro todos os dias, amor. Morro e levo comigo toda a história suja e mal contada desse mundo. Morro naqueles instantes entre o ainda estar desperta e o fechar dos meus olhos no fim das noites. Não sei explicar como e nem porquê, mas o suspiro sai em forma de sopro forte e tudo acaba. Vou ao céu e vou ao inferno. Depende do dia, depende de mim. Eu morro todos os dias, amor. O sonho vira uma espécie de pesadelo, a agonia vira uma espécie de paz e eu não consigo explicar. Estico os braços pela cama te procurando e as lágrimas caem, mas uma voz me diz: você já morreu, menina, esquece isso. E eu quero gritar que não que eu preciso voltar que isso não está certo, mas me deixo levar. Saio pela janela enquanto continuo na cama. Vago por essas ruas que escondem segredos pelas noites e nunca sei o que procuro. Nunca sei se procuro uma saída ou uma maneira de me perder e não voltar.

Eu morro todos os dias, amor. Não há velório, não há nenhuma lágrima além das minhas, ninguém percebe que eu morri. Levo o silêncio, levo as flores, levo as dores, levo as alegrias e as trago de volta quando renasço. Trago de volta em cacos e tento reconstruí-las. Quando eu volto voando pela mesma janela que eu saí, trago nos bolsos milhares de planos e sonhos que se quebraram enquanto eu estava a caminho do céu. Jogo tudo na cama e me observo dormindo. Transpareço tanta paz e exalo tanta agonia. Abro os olhos como se tivesse sido despertada de um sono muito profundo. Apoio a mão esquerda com toda a força no meu peito e tento organizar os pensamentos. Morrer não é tão difícil quando comparo com essa forma de renascer tão aflita.

Renasço com palpitações, com dor de cabeça e com as vistas meio turvas, com os olhos meio marejados. Suspiro tentando manter a calma e observo minhas mãos trêmulas. Olho no relógio nesses momentos e o horário que eu renasço é sempre o mesmo: cinco-e-trinta-e-sete. Observo meus braços arrepiados e peço pra essa aflição ir embora. Lembro dos sonhos quebrados no meio do caminho e vasculho os cobertores enquanto resmungo: tenho certeza que foi aqui que eu os joguei agora a pouco. Mas não os acho. Não vejo nada, mas sinto os cacos fincando cada pedacinho de mim. Choro um pouco e me sinto fracassada por não ter conseguido voltar inteira. Começo a tentar mentalizar coisas boas para estar completamente viva quando o Sol nascer e o que ronda minha mente são as cores do dia. O peito desacelera e eu respiro fundo.

Eu morro todos os dias, amor, mas sempre renasço com mais sede de vida.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Medo de escuro.

Não queria te perder de vista nesses momentos cruciais. Momentos que valem muito. Queria estar por perto quando o dia começasse só para te dar a certeza da grandiosidade da manhã. Não, eu não penso assim sempre, mas eu pensaria se acordasse ao teu lado e por pensar nessa possibilidade, acabo otimista com o nascer do Sol de todos os dias. Queria poder te oferecer mais do que minhas palavras. Queria te oferecer tudo que já é seu por inteiro, apesar de você não ter em mãos — ainda. Queria que aquele meu presente fosse mais do que algumas canções gravadas. Apesar de que as canções te contam em meio a instrumentos e vozes que eu sou sua. Ouça bem cada uma delas enquanto eu não posso te olhar nos olhos pra te dizer isso.

Meu coração fica pequenininho quando penso na imensidão de tudo isso. Quando penso na vontade de te segurar firme e falar que você merece ser muito feliz — "não só hoje, mas todos os dias". Quando penso na sua vida aí toda emaranhada com a minha vida do lado de cá. O coração não fica miúdo de agonia, não, fica miúdo por ser pequeno demais pra essa mistura absurda de sentimentos e sensações. Sensações e vontades. Vontades imensas que nem cabem em mim e tenho que recorrer à fantasias. Nem os sonhos me satisfazem mais porque, às vezes, você insiste em fugir de mim quando fecho os olhos. Mas quando acordo você volta  em pensamentos e sorrio meio abobada.

Dias como hoje. Dias que valem tanto só me dão mais vontade de te olhar. A imaginação falha em alguns momentos e em momentos em que você deve estar tão feliz, eu só queria observar essa felicidade. Não precisaria nem que você me visse. Eu poderia ficar escondida pelos cantos, te olhando atrás da fechadura, te olhando pela fresta da porta, te olhando por cima do muro ou de cima da árvore. Não digo que não queria estar contigo, queria sim. Mas só a sua presença seria o suficiente, acho que é isso. E depois de te observar o dia todo, eu poderia aparecer à noite. Não em sonhos, não em pensamentos. Em carne e osso. Deitada ao seu lado e contando de como eu te observei quieta sem que você me visse. De como eu fiquei feliz só pela sua felicidade.

O que eu quero dizer com tudo isso é: aproveite seu dia e faça com que todos os dias sejam seus, mesmo que não haja nenhuma data significativa. Fique feliz o tempo todo se possível. Não estarei escondida atrás de nenhuma porta te observando porque não será possível, mas eu estarei aí. De alguma forma. De qualquer forma. De todas as formas. Eu tenho medo de escuro, mas sempre apago as luzes só para te ver melhor.

domingo, 20 de novembro de 2011

"Como é que eu troco de canal?"

Esses dias são raros, mas eles existem. E corroem. A cabeça lateja tanto que é preciso fechar os olhos pra não chorar. Para não chorar pela dor de cabeça? Não, não só por isso, por tudo. Alguns diriam que isso é drama de adolescente que não tem do que reclamar, outros diriam que compreendem e se sentem da mesma forma, eu não digo nada. Nadinha. Silêncio profundo que enche o sábado, o domingo e mais ainda as segundas. Vai dando uma moleza inexplicável, uma preguiça de tudo e uma vontade de pegar a escada da dispensa, colocar na frente do guarda-roupa e tirar do maleiro aquela mala antiga empoeirada, soprá-la e colocar ali todas as roupas e todos os sonhos e ir embora. Sem rumo, sem ninguém. Mas nada é feito, apenas me ajeito no sofá e deixo as lágrimas caírem. Eu poderia ligar para uma amiga e pedir companhia, poderia chamar minha irmã e pedir para ela me contar uma história, poderia mandar mensagens no celular de tanta gente, poderia ir ao shopping... Ah, eu poderia muitas coisas, mas eu não faço nada disso porque eu sei de mim. Eu sei que há males dentro de mim que só a solidão cura. Só me resta apagar a luz e ir dormir. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pra cuidar de nós dois.

Eu te deixei sozinho porque você pediu. Fechei a porta e andei com as pernas bambas até o meu carro. Queria ter ficado e segurado um pouco a sua mão, mas o que me traria segurança poderia te trazer angústia e naquele momento, eu só pensava que-se-dane-a-minha-segurança porque era a sua que me importava. Um pensamento um pouco tolo talvez, eu sei bem. O seu silêncio está me ferindo sim, amor, mas espero que ele te ajude a organizar seus pensamentos e quando você se sentir preparado, venha e me diga o que atormenta. Meus ouvidos estão prontos para te ouvir e eu não vou dizer que é drama nem mesmo ignorarei palavra alguma, vou te ouvir e te darei mil e uma razões para que você não se sinta assim.

Você não sabe, mas desde a primeira vez que eu te vi, eu te assisto. Assisto de uma forma só minha. De uma forma meio errada, meio aflita, sinto urgência por você. Eu sempre te observo dormir, mas você não sabe disso. Sempre te vejo aproveitando as noites em que eu não estou, te faço cafuné quando o sono está demorando a chegar, seguro sua mão quando você sai para passear com o cachorro, te dou beijo de bom dia, bagunço seu cabelo quando você sai do banho. Mas quando você está assim, todo tristonho, eu não consigo fazer nada disso. Nem ouso. Tenho medo de te assustar com essa minha vontade de estar sempre aos arredores, tenho medo de fazer você se cansar de mim ou fugir pra bem longe e aí eu só deito em sua cama te observando. Observo quieta. Observo calada. Só observo. Tento te dar toda a força que eu guardo dentro de mim, tento te aninhar nos meus braços, tento sussurrar que você me tem por perto e que eu não quero te ver dessa forma, mas você não me ouve e não me quer por perto. E novamente, eu te respeito e vôo pra fora da sua janela. Mas continuo parada do lado de fora sem que você me veja.

Fico só esperando algum sinal seu que demonstre que você quer me deixar entrar de novo. Só basta um sinal e eu ressurgirei ao seu lado pra cuidar de nós dois.