quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Asfixia.

— Você acha que é simples?
— Acho. — Caio respondeu enquanto dava uma última golada no seu copo de whisky olhando pela janela.
— Não é nada simples! Porra, Caio, olha pra mim!
— O que foi? — Ele gritou me encarando com os olhos vermelhos e fiquei estática observando uma lágrima ou duas escorrerem por suas bochechas. — O que você quer, afinal, Daniela?
— Nós dois. — Sussurrei como uma criança envergonhada.
— É? Você quer nós dois? — Ele se aproximou e começou a roçar sua língua no meu pescoço, revirei os olhos enquanto ele me puxava pela nuca. — Deixa eu te dizer uma coisa... — Ele puxava meu corpo contra o dele com tamanha força que eu não conseguia mais raciocinar. — Nós já temos nós dois, mas você insiste em complicar isso. — Ele terminou de falar e se afastou brutalmente, andando para o outro lado da cozinha.
— Pra você é muito simples! Pra você é ridículo de tão simples... Não basta viver de festinhas! Não basta! Eu quero uma vida com você, mas você quer continuar sendo o moleque mimado de sempre. Você usou as táticas certíssimas para me prender e agora que conseguiu o que queria, esquece que eu existo. E continua aí, com essa cara de sonso, achando que tudo é simples! Nada é simples, Caio! — Eu berrei enquanto saia da cozinha, mas ele me puxou pelo braço antes que eu chegasse até a sala.
— Me fala, então... Me fala o que você quer de mim. Fala qualquer coisa que eu faço. Não aguento mais essas brigas. — Os olhos dele estavam fundos e me encaravam implorando por piedade.
— Eu não posso exigir nada de você. — Suspirei.
— Pode e deve. Eu sou completamente seu. Mas você não acredita. Então, eu te dou esse direito de exigir o que quiser. Exige e pede que eu cedo. Juro que cedo. Juro! — Ele afrouxou os dedos ao redor do meu braço e seus lábios começaram a tremer.
— Você está bêbado, amanhã não vai lembrar de nada.
— Eu estou consciente, eu sei dos meus erros e você tem razão: nada é simples. Mas eu quero descomplicar pra você. Eu quero fazer você voltar a sentir o que sentiu no começo. Eu quero te mostrar que eu não mudei. — Ele se aproximou bastante e novamente me puxou pela nuca, mas não fez nada além de afundar o rosto no meu ombro e logo depois se desabou em lágrimas.
— Para de chorar. — Senti um aperto no peito enquanto meus ombros ficavam molhados.
— Para de fazer assim comigo. — Ele murmurou cheirando meu cabelo.
— Desculpa pelos insultos. — Comecei a organizar meus pensamentos enquanto envolvia meus braços ao redor do seu tronco sem camisa. — Eu não quero ter que exigir nada de você, eu não quero que você pense que eu não sinto mais o que eu sentia no começo, eu não quero que você ache que existe a possibilidade de que eu desista de nós dois, eu só quero que você se lembre de como tudo era no início e compare com nossa situação agora. Eu estou exausta e você também. Onde é que nós paramos, Caio? — Ele levantou o rosto para me olhar e deu um meio-sorriso.
— Nós não paramos. Nós só corremos demais. — Ele enxugou o rosto e respirou fundo. — Nós tivemos pressa, quisemos adiantar o futuro pra ontem. Quisemos virar adultos quando éramos duas crianças se apaixonando. — Ele cruzou os braços e se encostou na parede do corredor enquanto me olhava, eu me encostei na parede oposta e fiquei de frente para ele. — Eu não me arrependo disso, mas deveríamos ter ido com calma. O problema é que não existe calma entre nós dois, nunca existiu.
— Eu tive mais pressa que você.
— Eu me joguei fundo logo de cara e você teve pressa de me salvar, mas acabou mergulhando comigo. Deveríamos ter subido até a superfície, talvez. — Ele esticou o braço o suficiente para acariciar meu rosto e eu fechei os olhos com aquele toque.
— Agora já estamos aqui, bem no fundo. No mais fundo que poderíamos chegar. E é disso que eu estou falando quando digo que não é simples. E se a gente se afogar? Tudo está desandando esses tempos.
— Nós não vamos nos afogar, Dani. Não vamos. Eu posso te dar esse trabalho todo e você também, mas nós temos um ao outro. Me perdoa por errar assim. — Ele me puxou pelos braços e me abraçou de novo.
— Me perdoa por errar assim também.
— Você já percebeu que nós sempre acabamos as brigas dizendo coisas meio poéticas? Eu não era assim até você aparecer. — Ele soltou uma risada gostosa de se ouvir, mas seu semblante ficou sério logo em seguida. — Não queria te sufocar com meu amor.
— Você não me sufoca. — Senti as lágrimas borbulharem. — Pelo contrário.
— Pelo contrário?
— Você é o ar.
— Isso foi poético demais pra mim...
Ele riu enquanto se aproximava de mim para me tirar o fôlego novamente. Nesses momentos eu tinha uma súbita certeza que ele era mesmo o ar. O ar e todos os outros elementos. O ar, a terra, o fogo e a água. Meu mundo entraria em desequilibrio sem a sua presença. Eu entraria em colapso sem a sua presença.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Como as tempestades funcionam.


O vento sopra segredos do lado de lá, já nem preciso encarar o horizonte com os olhos semicerrados porque as gotas de chuva não me deixam enxergar direito. Eu só sinto. Sinto os olhos arderem, sinto os cabelos se embaraçando, sinto a tempestade chegando. Ela se aproxima sempre disposta a causar catástrofes, disposta a destruir tudo que surgir pela frente, disposta a virar notícia na televisão, disposta a destruir e levar consigo tudo que eu tenho de bom dentro de mim. As chuvas tentam lavar qualquer sinal de amor, os ventos tentam arrancar qualquer sorriso ou qualquer resquício de paz. Os telhados voam, as minhas ruas inundam, mas nada se destrói. Nunca. Minha paixão por tempestades não é atoa porque eu sei que elas existem para me mostrar como eu sou forte. Enquanto eu sinto cada gota escorrendo pela minha testa, descendo pelo meu nariz, parando em minha boca e escorrendo para o pescoço, enquanto as gotas encharcam os pedaços de pano que me cobrem, enquanto as ondas elétricas se misturam com os tremores de frio, eu me sinto como eu devo ser: forte. Eu jurava que não sabia lidar, que não sabia me segurar na borda de qualquer abismo que fosse, que eu não sabia sentir nada além dessas agonias, mas a tempestade veio para me mostar que não, que eu posso sentir, que eu posso me segurar porque eu tenho força suficiente para não me deixar cair e que eu também sei amar. Quando o céu para de chorar e minhas lágrimas se cessam, eu me sinto renovada. Pronta para provar para qualquer um que eu posso ser esse amontoado de defeitos, mas que em algum canto da minh'alma há algo que vale a pena ser eternizado. Algo que tempestade nenhuma consegue lavar. Em certos momentos, eu fico abismada e percebo que eu sou a tempestade. Eu tento me destruir, mas não consigo. Eu sou a tempestade, mas eu sou brisa também. Eu sou a tempestade, mas guardo feito rocha o que merece ser guardado. Deixa chover que daqui a pouco abre o Sol. É assim que funciona.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Camille e seu esmalte.

Camille,

Será que ainda é possível te chamar de minha? Ando pensando que você nunca foi inteiramente minha, infelizmente. Nem quando você olhava no fundo dos meus olhos e jurava por Deus que era comigo que você queria viver todos os seus dias... Nesses momentos era sua carência de afeto gritando, não era? Porque você nem ao menos acredita em Deus, Camille. Mas eu acreditei em nós dois. Mesmo quando você pintava sua boca e saia sem hora para voltar, eu ficava deitado naquele sofá te esperando. Eu te esperava por horas, passava a mão naquele gato rabugento, tentava me distrair com a televisão e aí você chegava. Quatro ou cinco da manhã. Meu peito que quase explodia de preocupação e de saudade se esvaziava subitamente. Lembro bem de cada sorriso que você me devolvia quando chegava em casa, eu não dizia nada e nem reclamava por sentir aquele gosto de vodka quando você vinha me beijar. Eu te aninhei em meus braços por tantas madrugadas enquanto você deixava suas lágrimas rolarem e sua maquiagem borrar completamente. Eu te acariciava até pegar no sono, te carregava até a cama e não te fazia pergunta nenhuma porque, como eu disse, eu acreditava em nós.

Não sei se você está se perguntando, mas agora eu estou em um apartamento bem menor que o nosso. Num bairro bem mais horrível e cheio de mulheres perdidas em cada esquina. Ontem eu saí para beber um pouco e acabei bebendo muito. Na volta pra casa, uma mulher estava parada com um cigarro e um vestido bastante justo bem na porta do meu prédio. Eu a olhei por alguns segundos e jurei que era você. Até chamei seu nome baixinho e ela sorriu maliciosamente para mim quando viu meus lábios se mexendo. Mas por aquele sorriso, eu voltei para a realidade e vi que não era você, seus sorrisos absorviam toda a paz que te rodeava e mesmo qualquer tipo de sorriso malicioso, era bonito de se ver. O daquela moça não, era um sorriso sujo. Ela começou a puxar papo e eu a trouxe aqui para cima. Camille, nojo foi tudo que eu senti. Nojo de mim, nojo dela, nojo do mundo e nojo da minha incapacidade de seguir em frente. Mesmo que você tenha me esquecido, ainda está pisando com seu salto agulha no meu peito. Eu não consigo seguir em frente e às vezes, quando estou bêbado eu me olho no espelho e sinto saudades de quando minha embriaguez se resumia a engolir suas lágrimas no escuro.

Durante nossos anos juntos todos momentos importaram, obviamente. Mas houveram duas situações que mexem com meu psicológico até hoje. A primeira situação ocorreu nos nossos primeiros meses juntos, lembro bem que pegamos um pouco de vinho, alguns cigarros e fomos para o topo de um morro não muito longe da cidade. Quando todo o vinho já havia se esgotado e quando você já estava deitada sobre minha camisa, eu contava as estrelas silenciosamente. Não sei se foi uma alucinação, mas eu e você, vimos juntos aquela estrela cadente e fizemos nossos pedidos. Eu sussurrei no seu ouvido o que havia pedido e você me deu um tapa no braço enquanto ria com a boca aberta, eu estava sem entender a graça e você disse: "Agora que você contou, não vai ficar comigo pra sempre". Eu ri também, claro, mas desde aquele dia, eu estremecia com medo de te perder, parecendo um garoto superticioso, mas veja só onde chegamos. Eu devia ter ficado calado, não é mesmo? A segunda situação foi quando, certa vez, você acordou no meio da noite, me abraçou apertado e começou a chorar. Eu acordei atordoado e acendi o abajur. Seus olhinhos, tão miúdos, estavam pequeninos me olhando e eu perguntei o que havia acontecido. Tive que perguntar nove vezes para você me mostrar suas unhas. Minha sobrancelha se manteve levantada enquanto eu observava seu esmalte vermelho descascado. Aí você suspirou e disse: "Passei esse esmalte ontem e olha como ele está.", eu sorri enquanto enxugava suas lágrimas e você continuou: "Eu não quero que com nós dois seja assim. Não quero que termine rápido, amor.". Acho que foi a comparação mais maluca que você já fez, mas foi uma das mais bonitas. Eu só disse que não acabaria nunca e apaguei a luz. Sorte a sua que não acabou rápido, azar o meu que acabou antes da eternidade que eu havia planejado para nós.

Não sei qual o propósito dessa carta, talvez seja só minha vontade de desabafar e você é a única que eu confio plenamente. Soa até um pouco irônico. Eu sei que quando você gritou chorando e me pedindo para ir embora, eu só fiz minhas malas em silêncio e fui. Eu sei que posso ter errado ao agir assim. Mas estava me doendo demais ver que você estava mal comigo e o que eu sempre prezei foi a sua felicidade. Antes mesmo de olhar para a minha felicidade, eu queria te ver feliz, Camille. E se iria te fazer feliz que eu fechasse a porta e descesse as escadas para nunca mais voltar, era aquilo que eu faria. Entende? Talvez seja essa a outra razão para que eu esteja te mandando essa carta: quero que você saiba que se você chamar, eu não penso duas vezes para largar esse lugar e voltar. Não sei se existe essa possibilidade de você me querer de volta, mas estou dizendo por precaução. Eu errei muito, assumo meus erros e me exponho nesse papel. Mas não é por remorso não, é por amor. Simples e complicado assim.

Eu te amo, Camille. Sempre vou te amar. E garanto que da próxima vez que eu ver uma estrela cadente, não contarei para ninguém meu pedido. Apesar de que você já deve saber exatamente o que eu pedirei.

Beijo grande,
do seu, sempre seu.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Último Romance.

Fala que eu vou concordar, pede que eu cedo, me entrega os papéis que eu assino, eu selo qualquer trato se você me pedir com jeito, eu faço promessa do dedinho, eu sussurro qualquer bobagem no seu ouvido e até faço qualquer pacto maluco que você queira. Faço o que preciso for para que você acredite em mim. Acredita que eu sou feliz como jamais fui, acredita que eu não vou a lugar algum — não sem você. Ficou decretado desde o primeiro momento que era em você que eu iria morar, com toda a tralha e todas as complicações durante a mudança, com todo o entulho das casas passadas e todas as lágrimas acumuladas no canto do olho, você abriu suas as portas e me aceitou assim. Da mesma forma que eu abri as portas, as janelas, retirei os móveis e deixei você se alojar da forma que bem entendesse dentro de mim. Fique à vontade, amor. A casa é sua e eu também. Deixa eu afundar o rosto no seu pescoço quando eu ficar em silêncio demais, deixa eu afundar minhas unhas na sua nuca, deixa eu te abraçar como se tivesse acontecendo qualquer catástrofe ao nosso redor, deixa eu te beijar sem pretensão de parar, deixa eu te mostrar que nossos medos não são nada perto de nós, deixa eu segurar sua mão com essa força absurda, deixa eu fazer desenhos imaginários com meus dedos nas suas costas, deixa eu te escrever aquelas cartas e vem. Vem me ajudar a tornar realidade qualquer plano que nós fizemos, qualquer ideia louca. Como é que se diz naquela música? "Ter fé e ver coragem no amor", pois então... Eu tenho fé em nós e te garanto, somos muito corajosos.





E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Fragmentos do lembrete para a moça que amava demais.

(...) Se dê um tempo, dê tempo para que os outros sintam falta, não se agarre de maneira tão forte a uma incerteza. Não pinta o cabelo dessa cor, não pinta os lábios desse jeito, não bata com tanta força na porta dos vizinhos de madrugada porque eles não vão querer te atender. Não ligue tanto pra esses números fora de área. Não anda descalço sobre tantas rosas porque são elas que tão belas e tão frágeis te machucam com tamanha força com esses protótipos de espinhos. Não fique longos segundos mergulhada na banheira, não arregale os olhos quando ficar sem ar. Não desça as escadas correndo porque você sempre tropeça no último degrau. Não aperte com tanta verocidade o botão do elevador porque isso não fará com que ele chegue mais rápido até você. Não chore tanto ao telefone, não ande com essa garrafa na mão. Não encoste nesses cigarros do seu bolso. Pare de tremer dessa forma. Eu tentei te avisar desde o início, mas você me ignorou. Junta essas canetas e para de rabiscar os sonhos. Abre essa janela, abre a porta. Agora é você por você mesma. Eu te avisei. Eu disse que amar é morrer um pouco mais que o normal a cada segundo para renascer no segundo seguinte. Eu te avisei.

— Você não avisou.


Não diga que eu não te avisei.
Mas não se esqueça que eu disse que valia a pena.
Porque vale. Morrer acompanhado pode não ser tão ruim.


— Vale a pena.


Quer saber? Ignora tudo que eu disse. Ignora e vai. Ele está te esperando lá embaixo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A alma que queria partir.

O diagnóstico havia sido feito pelo melhor médico da cidade. Ele passara aproximadamente vinte noites acordado com os olhos bem abertos enquanto pensava na sua paciente e depois disso, a examinou mais oito vezes para ter certeza daquele caso raro. O único no mundo, quiçá. Como dar aquela notícia tão absurda para a família? Como explicar com palavras sensatas o que se passava com a pobre moça? Quem a olhasse nos olhos, talvez percebesse que algo estava errado, mas ninguém julgaria se tratar de algo tão grave. Quem a visse andando na rua achariam que tudo estava bem ou que ela estava simplesmente passando por um dia ruim. Ninguém — nem mesmo ela — sabia o que de fato lhe acontecia e lhe atormentava.

O doutor, então, depois de muito pensar trancado em sua sala, chamou a família e a moça. Chamou-os pra dentro e pediu que se sentassem. A mãe, um pouco trêmula, sentou segurando sua bolsa com as duas mãos firmes. O pai com um olhar bastante distante, sentou-se ao lado da mulher e repousou sua mão no ombro dela. Já a paciente sentou-se rapidamente e encarou o médico com aquelas pupilas dilatadas, aqueles olhos azuis amendoados e aquelas lágrimas acumuladas nas pontas dos cílios. E por fim, o namorado permaneceu em pé atrás dela com suas duas mãos sobre seus ombros. O médico puxou o ar enquanto aqueles oito pares de olhos o encaravam de maneira angustiante, ele mediu as palavras mais quinhentas vezes e disse:

— Pois então... — Outro suspiro foi arrancado de seus lábios.
— O que ela tem, doutor? Diz logo, não me aguento mais nessa agonia. — A mãe choramingou.
— Não sei explicar bem, não é nada físico. — Deu-lhes um sorriso amarelo e prosseguiu. — E não é nada psicológico que remédios possam curar ou que terapias possam ajudar. É algo mais profundo. — O papo estranho começara, mas ele teria que ir até o fim. — O problema está na alma da nossa pobrezinha. 
— Como assim na minha alma? — Ela levou sua mão até seu ombro e tocou a mão do namorado que estremeceu com a sensação de que um bloco de gelo o havia tocado. — Com todo respeito, doutor, mas quem o senhor acha que é para julgar minha alma?
— Não sou ninguém, garotinha. Mas eu sei. Eu sei e creio que você também sabe do que estou falando. — Ele fixou seus olhos nos dela e ela desviou o olhar para deixar que uma lágrima escorresse. Ele prosseguiu olhando para os pais. — Não há cura e nunca haverá, cuidem dela como se fosse seu último dia porque nunca saberemos quando realmente será. — O silêncio prevaleceu até todos decidirem se retirar da sala do médico maluco.

Rude. A menina pensava e repitia mil vezes em sua mente o quanto aquele doutor era rude para falar daquela maneira. O namorado lhe entrelaçara a mão no momento em que saíram do consultório e não ousava soltar. Os pais foram o caminho de volta para casa discutindo o que, afinal, o médico queria dizer com toda aquela baboseira. Mas ela, ela sabia bem do que ele dizia. Ela carregava na alma o peso no mundo, carregava nos ombros o que já não lhe cabia mais no peito e carregava no fundo dos olhos o que a vida havia lhe dado. Era aquela a verdade. Qualquer um que realmente reparasse nela, saberia que ela era uma joia rara de preço inestimável, mas que não adiantaria lutarem para proteger-lhe da solidão porque a solidão era sua melhor companhia. Ela fugia de todos para conseguir botar tantos pensamentos em ordem. Ela não conseguia devorar os sentimentos pelas bordas: ou ela pulava de ponta dos penhascos com os quais se deparava ou ela não seria ela. Ela precisava da imensidão e quando não tinha o mar ou o céu, recorria aos seus sentimentos. Era aquela a verdade.

Ao perceber que a namorada não havia dito uma palavra sequer desde que saíram do consultório, o rapaz de olhar ameno e lábios finos, resolveu chamar-lhe de volta para a realidade enquanto entravam no quarto dela:

— O que ele falou que te incomodou tanto? — O jovem foi direto.
— Ele me expôs, não suporto que façam isso comigo. Como ele descobriu? — Ela tinha os lábios trêmulos e afundou a cabeça na curva do pescoço do garoto.
— Como ele descobriu o quê? Por favor, me fala. — A angústia dela estava se passando para ele que não pensou duas vezes antes de começar a afagar os cabelos dela.
— Eu estou a beira da morte, amor. — Ela sussurrou no seu ouvido e enxarcou a bochecha de ambos com suas lágrimas cristalinas.
— Não está! Não está... O médico já disse que você não tem nada físico e muito menos psicológico. O que ele quis dizer com aquele lance de alma é tudo invenção, tudo invenção. — Desesperado e desamparado ele deixou um ou duas lágrimas caírem também.
— Não, não. Você não entendeu. Eu estou a todo momento a beira da morte, mas dessa vez acho que não escapo. — Ela pousou o dedo indicador sobre o lábio deles e prosseguiu... — Não diz nada. Quer dizer, diz sim, canta pra mim aquela música que fala da escuridão...
— Meu amor, um dia você irá morrer, mas eu vou estar logo atrás... Eu vou seguir você até a escuridão*. — Ele cantou meio chorando meio sussurrando meio desesperado enquanto embalava a menina num abraço. As forças dela para soltar um suspiro forte eram escassas e só lhe restou soprar de leve enquanto sentia os braços do garoto ao seu redor. Ele a soltou um pouco para olhar dentro dos seus olhos e logo entendeu o que ela havia falado, voltando a abraçá-la em seguida e repetindo mil vezes sem pensar. — Eu vou seguir você até a escuridão...*


*Trecho da tradução da música "I will follow you into the dark" da banda Death Cab For Cutie.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tradução.

Errei ao supor. Eu supunha que te conhecia por inteiro, supunha me conhecer inteiramente e supunha conhecer a imensidão desse sentimento. Errei de maneira inigualável quando eu sussurrei no meio da noite, depois de uma dose ou duas de bebida, que eu sabia onde isso iria parar. Eu nunca soube, amor. Nunca soube e nem sei ainda. Eu não te conheço por inteiro, mas cada dia que te descubro só aumenta a vontade de afundar meus dedos no seu cabelo. Eu não me conheço inteiramente e você também vê só a ponta desse iceberg que sou, mas vou me descobrindo aos poucos e vou me mostrando com calma para não te assustar, não quero tirar de você a vontade de me aninhar nos seus braços. E onde já se viu? Eu deduzia que em tal dia em tal hora, o sentimento pararia de crescer e que nos manteríamos assim, plenos e amenos. Somos qualquer coisa, menos amenos. Nunca preciso fazer nada e ainda assim, sinto meu amor crescendo todos os dias. Não há suposição válida para nós dois. Nós só somos.

Estava cansada de tantas máscaras, não haviam mais opções de disfarce, mas você veio me salvar. Joguei todas as máscaras debaixo da cama, varri toda a poeira do quarto e abri a janela para o vento trazer seu cheiro. E seu cheiro chegou, invadiu a casa toda e pareço um pouco desnorteada enquanto fico andando do quarto até a cozinha com os olhos fechados e um sorriso no rosto. Vou até a janela com passos tímidos e te chamo baixinho enquanto te procuro pelas nuvens ou entre os carros que correm lá embaixo. O vizinho do prédio da frente já nem sabe direito se eu tenho uma espécie de amigo imaginário ou se eu gosto de falar sozinha, mas ele nem imagina que não é nem um e nem outro. Eu gosto de conversar com você desse jeito, mesmo em silêncio e mesmo sem você me ouvir, eu estou a todo momento te sussurrando meus segredos, meus anseios e meu amor — que já não cabe em mim mais.

No meio das noites, às vezes tão quentes e às vezes tão frias, eu não me importo de acordar com a visão embaçada e fechar os olhos logo em seguida só para ouvir sua voz. Não me importo de chorar baixinho quando eu percebo que amor maior não há. Não me importo de suspirar em meio a silêncios e te falar, meio estremecida, que eu nunca amei assim. Saímos pelas noites separados, mas os dois sabem muito bem onde querem estar no final. Eu sou apaixonada por você e você é apaixonado por mim, mas essa não é a parte mais mágica. A magia toda se envolve ao redor do fato de que o amor está apaixonado por nós: encontrou seu lugar e agora tem certo conforto por estar, finalmente, alojado em nós dois. Se o amor se traduzisse em gestos, não tenho dúvidas que seria qualquer um que envolvesse suas mãos nas minhas, sua boca na minha e seu corpo no meu. Se o amor se traduzisse em algum gosto, não tenho dúvidas que seria o gosto da sua saliva misturada com a minha. E se o amor se traduzisse em palavras, não tenho dúvidas que seriam apenas duas: meu nome grudado no seu.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A menina das asas quebradas.

Ela se manteve parada diante do espelho com certo pavor ao se encarar diretamente. Mais um dia estava começando normalmente até ela se olhar no espelho. Não podia acreditar naquele defeito inaceitável. Não podia se encarar e nem suportaria os olhares que lhe lançariam. As lágrimas desciam pelas bochechas rosadas, pela pele de porcelana enquanto ela se virava de costas para o espelho. O que falariam dela? O que falariam para ela? Erros assim são imperdoáveis, mas ela nem lembra onde havia errado afinal. Vestiu seu melhor sorriso e saiu. Saiu sem saber direito aonde ir, não iria para os lugares de sempre, mas também não tinha outros lugares para ir.

Tentou esconder suas falhas, mas em vão. Enquanto ela caminhava todos na rua a encaravam abismados. Como aquela menina tinha perdido aquele pedaço de asa? Nem ela saberia dizer. Acordara daquela forma e não conseguia se perdoar por ter deixado escapar um pedaço tão grande de si mesma. Ela estava andando meio cambaleando para a esquerda porque a asa deste lado pesava mais que a outra. Queria mandar todos calarem seus pensamentos enquanto ela caminhava cabisbaixa. Queria encontrar um par de asas novas ou qualquer consolo, mas era impossível no meio de todos aqueles outros perfeitos e completos.

Ela continuou andando em frente e passou a ignorar os olhares julgadores. Ela já estava se odiando o suficiente para ter que aguentar os julgamentos dos outros. Avistou, finalmente, um banco vazio e sem ninguém ao redor. Atravessou a rua sem olhar para os lados e se sentou. Suspirou com um misto de agonia e alívio enquanto torcia o pescoço para observar suas asas. "Pobrezinhas...", ela balbuciou tremendo os lábios vermelhos. "O que foi que eu fiz conosco?", ela se perguntou deixando as lágrimas escorrerem novamente.

Quando conseguiu parar de chorar e ficou estática no banco, lançou seu olhar para o outro lado da rua. Não havia ninguém além de um rapaz. Um rapaz alto de sorriso torto, cabelos perfeitos e asas quebradas. Ele manteve suas mãos no bolso enquanto olhava para a menina sorrindo. Pensou em chamá-la, mas decidiu que seria melhor ir até ela. Sacudiu os ombros e atravessou a rua sem olhar para os lados também. Apontou para o espaço vazio do lado esquerdo do banco como quem perguntasse se podia se sentar e a menina apenas fez que sim com a cabeça enquanto passava as mãos pelos olhos. Ficaram sentados um do lado do outro em silêncio por um longo tempo. Depois de longos minutos, ele falou:

"Doeu?", ele apontou para as asas dela.
"Perder aquele pedaço?", ela perguntou molhando os lábios com a língua logo em seguida. Ele assentiu com a cabeça e ela prosseguiu. "Não, nem me lembro como perdi... E o seu?".
"Doeu e doeu muito...", ele forçou uma careta e se remexeu calmamemente.
"Sinto muito", foi tudo que ela soube dizer. Não queria entrar em detalhes, não se achava nesse direito.
"Está tudo bem.", ele também não sabia muito bem o que falar. "Ser assim é normal.", ele procurou as palavras e quando as achou, soltou-as de uma vez. "Foi um choque para mim quando eu me vi sem as minhas também, mas eu sabia que o que viria a seguir era grandioso. Pelo menos era o que diziam as lendas.", ele sorriu encostando na bochecha dela.
"O que veio a seguir? Quais lendas?", um olhar de dúvida foi lançado.
"A lenda das asas quebradas. Como nunca ouviu?", agora fora a vez dele de lançar para ela um olhar de dúvida. "Dizem que quando suas asas se quebram, você tem a chance de se camuflar e esconder sua imperfeição. Desde que você proteja uma pessoa o máximo que puder até que o inevitável aconteça e as asas dela se quebrem também.", ele suspirou e prosseguiu. "E dizem que depois os dois podem se reconstruir juntos.", ele fixou seus olhos verdes nos olhos mel dela.
"Quem você protegeu e por quê suas asas não estão reconstruídas?"
"Ora, não está claro? Eu protegi você. Há anos minhas asas se quebraram e eu escolhi te proteger. Não sei por qual razão, mas escolhi. E eu te protegi. Foi minha grande missão por anos e anos. Até que ontem, por um discuido meu, enquanto você dormia você perdeu um pedaço da suas asas. Eu me senti péssimo, mas fico mais aliviado que não tenha doído em você.", ele sorriu e ela o olhava boquiaberta. "Não me olhe assim. Foram os melhores anos da minha vida. Mas só não foram tão bons quanto os que estão por vir.", ele ainda mantinha seu sorriso nos lábios.
"Agora o que vai acontecer?", ela queria fazer milhares de perguntas, mas se sentia hipnotizada por aquele que ela poderia chamar de anjo.
"Agora nós vamos nos reconstruir, menina.", ele não se conteve e entrelaçou sua mão com a dela. "Céus, como eu queria fazer isso...", ele pensou em silêncio e estremeceu.
"Como?", ela sentiu o tremor dele e tremeu em resposta.
"Venha.", ele depositou um beijo gentil nos lábios dela e se pôs de pé.

Ele a puxou pela mão e atravessaram a rua. Sem olhar para os lados.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sem saída.

Não há mais salvação. As chances de retornar e pegar o caminho de volta se esgotaram. As chances de poder fechar os olhos sem te enxergar já se esgotaram. Até certo ponto, eu poderia fugir se eu quisesse. Eu não quis. Mas eu poderia sim, ter acenado de leve e corrido pra longe. Eu poderia, mas não quis porque eu tenho certo gosto pelo que me amedronta e você me amedrontou, logo de cara. Uma espécie de raio me atacou desde o primeiro momento e isso é inegável. Você derrubou as portas que eu havia trancado à sete chaves e nem me pediu permissão. Eu te olhava abismada e boquiaberta, mas você foi me invadindo mesmo assim.

Havia um impulso me empurrando para a saída de emergência, mas eu fui ficando, fui observando tudo cuidadosamente. Mas quando eu me descuidei por dois segundos só para te admirar no escuro, eu vi que era tarde demais. E algo dentro de mim murmurou que era pra esse rumo que meu destino apontava e que já não tinha volta. Saída de emergência? Não havia nenhuma mais e eu não queria que houvesse. Eu me desarmei para não te assustar, retirei dos bolsos aqueles papéis que ditavam regras e soube que nada daquilo serviria para nós. Somos únicos, eu tenho certeza. Não adianta ninguém vir sussurrar o que eu deveria fazer porque ninguém está nas nossas peles. Só eu e você sabemos de nós.

Não há mapa que nos ajude a chegar no tão sonhado final feliz, ninguém pode nos guiar. Por isso que eu seguro na sua mão dessa maneira, por isso que eu olho tão fixamente pra você, por isso que eu tento tanto te cuidar. Nós somos o destino e a viagem e eu não quero que você se perca, não suportaria te perder. Sou um pouco descuidada e sei bem que tropeçarei muito, mas sei que da mesma forma terei que te ajudar quando for sua vez de tropeçar. Eu nunca tive tanta disposição para acreditar em uma história como eu tenho para acreditar na nossa.

Mesmo com os olhos vermelhos depois de tanto chorar no telefone, eu sei bem da felicidade que só você me causa. Não pense que minhas lágrimas vão me afogar porque não vão. Mesmo murmurando neuroses e me mostrando frágil, eu sei da nossa força. Não pense que meus medos vão nos destruir porque não vão. Eu sei que se eu fecho os olhos, você vem. Eu sei que enquanto eu não puder ficar brincando com os dedos no seu ombro, eu tenho a sua voz. Não pense que com nossos silêncios eu vou deixar de te ouvir, porque eu não vou. Eu sei que enquanto eu não posso te cuidar da forma certa, eu posso te cuidar das minhas maneiras tortas. Você me salvou e eu não me importo que não tenha mais volta. Eu não quero outros caminhos porque neles eu não existiria completamente. Eu não quero outra vida porque sem você já não seria certo chamar de vida. Não pense que nossas tentativas de nos alcançarmos são inúteis porque eu tenho certeza que não são.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Foi só a música.

A verdade é que ela já nem se lembrava dele, não havia razão para lembrar. Ele também não se lembrava dela porque já não via mais sentido em manter sua vida fixada num passado muito distante. Eles não lembravam um do outro. Mas quando ela deitava a cabeça no travesseiro, ela sussurrava baixinho cadê-você e ele, do outro lado da cidade, rolava pela cama sentindo falta de um corpo para abraçar. Um corpo não, o corpo. O corpo dela. Mas eles não se davam conta disso e seguiam sempre em frente sem olhar para os lados, sem olhar por cima dos ombros, sem demonstrar qualquer sinal de remorso pelo fim.

Naquele momento, ela se debruçou sobre o parapeito da janela e fechou os olhos enquanto ele rondava a cidade em seu carro. Ela se manteve daquela forma por minutos ou horas, talvez, não saberia dizer enquanto ele se manteve rondando a cidade por minutos ou horas, quem sabe? Ela ajeitou seu vestido e voltou seus olhos para dentro do apartamento e a visão ficou um pouco embaraçada com aquela mistura instantânea de claridade e escuridão. Ele parou em um posto de gasolina só por parar, não fez nada além de esticar os braços, retirar os óculos escuros e sentir a visão um pouco embaraçada com aquela mistura instantânea de claridade e escuridão.

Ela arrumou sua cama, jogou água nas plantas, se olhou no espelho e se achou linda. Ele se olhou no vidro retrovisor do carro e se achou um lixo com aquela barba mal feita e aquelas olheiras. Ela precisava ligar o rádio para cantarolar enquanto arrumaria algo para comer. Ela ligou o rádio e começou a tocar aquela velha canção, como se chamava mesmo? E por falar em saudade, onde anda você? Ele precisava ligar o rádio para buscar algum consolo na voz de qualquer cantor. Ele ligou o rádio e estava tocando aquela velha canção, como se chamava mesmo? E por falar em paixão, em razão de viver, você bem que podia me aparecer.

Ela pensou em ir até o telefone, mas não. Ele procurou o celular nos bolsos da jaqueta, mas não. Mas sim. Achou. Discou. Ela ouviu o telefone tocar e pensou que coincidência grande, meu Deus, quem será? Abaixou o rádio e atendeu.

— Alô?
— Alô?
— Que coincidência, estava me lembrando de você.
— Mesmo? Pois eu também.
— Por quê?
— Por quê?
— Tocou uma música no rádio que me lembrou tanto você. Responda você agora.
— Isso que aconteceu comigo também. Que coincidência.
— Sim, que coincidência. Foi só a música?
— Não sei, foi só a música?
— Foi só a música.

Desligaram. Não havia sido apenas a música. As gargantas ficaram secas, os cigarros foram acesos, o céu ficou nublado instantaneamente, palavras permaneceram emboladas e Vinicius de Moraes continuou repetindo na mente de cada um: e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade onde anda você e por falar em saudade. Onde. Anda. Você?